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25 de maio |
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Muito
além da palma |
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Cannes
- Cannes 2000 saiu-se melhor do que a encomenda, premiação à parte.
A multiplicação de prêmios extras, por todos os júris, não foi desta
vez resultado de composições políticas mas sim reflexo da bela safra
que passou pela Croisette.
O júri oficial, presidido por Luc Besson, concedeu dois prêmios além
do determinado. Nada que surpreenda dada a mais forte competição recente.
A média foi altíssima entre os 23 concorrentes.
A Ásia roubou a cena. Seus seis filmes poderiam ter saído premiados.
A seleção foi infeliz no que diz respeito sobretudo aos títulos americanos
e ao caso brasileiro.
A política de autores renomados que caracteriza o ‘délégue genéral‘
Gilles Jacob levou-o a preferir ‘Estorvo‘, de Ruy Guerra, a ‘Eu Tu
Eles‘, de Andrucha Waddington. Todos saíram perdendo. É urgente que
Cannes reveja seus critérios quanto ao cinema latino-americano como
um todo e ao brasileiro em particular. O mesmo vale quanto aos EUA
-mas os filmes americanos precisam menos de uma marcante presença
em Cannes do que nós.
A Câmera de Ouro para cineastas estreantes ousou pela primeira vez
dividir seu prêmio. Escolheu dois filmes iranianos (‘Djomeh‘, de Hassan
Yektapanah, e ‘Um Tempo para os Cavalos Bêbados‘, de Bahman Ghobadi),
chamando a atenção para uma nova geração pós-Kiarostami.
Na mesma linha foi o prêmio da Fondation Gan para a mostra paralela
Um Certo Olhar. Elegeram-se dois jovens talentos latino-americanos,
de certo modo corrigindo desvios da seleção. Vamos ouvir falar muito
de Rodrigo García, o filho de Gabríel García Marquéz que venceu com
sua estréia já nos EUA com o altmaniano ‘Things You Can Tell Just
By Looking At Her‘. E Andrucha Waddington apaga a fraca impressão
da estréia (Gêmeas) com o sensível ‘Eu Tu Eles‘, merecedor da primeira
menção especial na história do prêmio.
Os curtas brasileiros saíram-se muito bem, apesar da ausência de prêmios.
Só o tradicional paternalismo justifica a Palma de Ouro para curtas
concedida ao filipino ‘Animo‘ (Sombras) de Raymond Red, sobre um fotógrafo
que acorda para os dramas sociais das ruas de Manila.
Seu concorrente nacional, ‘Três Minutos‘ de Ana Luiza Azevedo, ganhou
merecidos elogios do crítico titular do ‘Le Monde‘, Jean-Michel Frodon.
Frodon destaca seu domínio da linguagem cinematográfica e o define
como ‘uma sutil evocação da paisagem mental de uma mulher‘. Já ‘Rota
de Colisão‘, de Roberval Duarte, na Quinzena dos Realizadores, e ‘De
Janela Para o Cinema‘, de Quiá Rodriguez, na disputa da Cinefondation,
mereceram calorosas acolhidas do público.
O casamento e suas crises foi o tema dominante do festival. Os filmes
de época voltaram à ordem do dia, no Ocidente como no Oriente, com
resultados nem sempre felizes (exemplo maior: o francês ‘Les Destinées
Sentimentales‘ do Olivier Assayas).
Mais uma vez é a Frodon que devemos a mais original análise das tendências
destacadas em Cannes 2000. O crítico francês notou a interessante
subversão neste ano da ‘dicotomia entre o cinema de artifício e o
cinema de registro‘ (ou realista) que, acrescento eu, marcou o cenário
dos anos 90.
À implosão por dentro dos gêneros (de Tarantino a von Trier, de quem
ainda vão dizer que ‘descontruiu os musicais‘ com o vitorioso ‘Dancer
in the Dark‘), impôs-se a aposta ‘de trabalhar o material cinematográfico
ele mesmo‘, diz Frodon, enumerando a partir do excepcional ‘In the
Mood for Love‘ de Wong Kar-wai: ‘gestos, durações, cores, enquadramentos‘.
É como se a tendência realista, digamos do cinema iraniano recente,
tivesse dado um passo atrás, voltando-se não mais para as coisas e
pessoas que se posicionam defronte à câmera mas para um retrabalho
com a materialidade do cinema antes do que a do mundo.
Em síntese, não foi nada calmo, ao contrário do que em tempos melhores
cantava Björk. Muito melhor assim.
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