Pensata

Luiz Caversan

08/09/2007

Sete de Setembro

Os sapatos eram novos, apertados. Brilhavam, apesar da poeira. Tinha muita poeira, mas o desfile de Sete de Setembro passava mesmo por uma rua sem calçamento antes de percorrer a avenida onde a maioria das pessoas se concentrava, bandeirolas em punho.

Os sapatos eram apertados, a calça de tergal azul-marinho tinha vinco permanente e o colarinho sintético da camisa Volta ao Mundo feria o pescoço. O calor incomodava, mas a agente ia firme, cabeça erguida, marcando o passo de acordo com o bumbo da fanfarra. Bum-bum, bum-bum-bum.

Os metais solavam nos hinos, que tinham sua grande chance nessas datas festivas, como o Sete de Setembro.

Tocava-se de tudo, não apenas o "já podeis da pátria filhos/ ver contente a mãe gentil" dedicado à Independência, aquele que também garantia que "já raiou a liberdade no horizonte do Brasil".

O colorido político mudara rapidamente da democracia frágil dos anos 50 para o regime militar daqueles 60 e a ditadura que se seguiu.

No mundo, marchava-se contra o Vietnã; aqui, pelos heróis da pátria...

Mas a emoção verdadeiramente patriótica que surgia nesses momentos cívicos era expressiva, os sentimentos mais profundos afloravam. O sentimento de Nação, assim, com, maiúscula.

"Qual cisne branco em noite de lua/ vai navegando no mar azul" era também lindo, e eu adorava ainda a música do hino dedicado à Bandeira, cuja letra começava: "Salve lindo pendão da esperança..." e terminava emocionante e solene: "Recebe o afeto que se encerra em nosso peito juvenil/ querido símbolo da terra/ da amada terra do Brasil".

Peito que cantava forte; cabeça fresca, decorava essas letras todas _pendão?!

Até mesmo, e principalmente, a letra extensa do maior de todos, aquele que, apesar de repleto de palavras e frases incompreensíveis até hoje, fazia um frio percorrer a espinha e dava coragem para se abrir a voz e desafiar todos os perigos imagináveis para defender o quanto fosse preciso essa pátria de tantos encantos, e da qual a gente lembrava mesmo era no Sete de Setembro.

A fanfarra caprichava, e todos nós mandávamos ver: "O Sol da liberdade em raios fúlgidos/ brilho no céu da Pátria neste instante"!

Eu ficava furioso quando algum colega teimava em conversar ou fazer gracinha na hora no Hino Nacional, que naquele época não estava vulgarizado como hoje _não sei bem se isso é bom ou ruim, mas o hino era executado apenas em grandes ocasiões.

Como o Sete de Setembro, quando os colégios da zona leste de São Paulo competiam para ver quem fazia mais bonito, e o meu, pobrezinho, sempre perdia.

Mas não importava, o que ficava, o realmente importante era a o quase grito de "pátria amada Brasil" do final do hino, grito que repeti sozinho hoje, em casa, meio até que envergonhado, apenas para avivar aquele sentimento de décadas atrás, quando orgulho e esperança predominavam no peito cheio de certezas.

Peito hoje longe de ser juvenil...

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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