Pensata

Luiz Caversan

22/09/2007

Câncer

Meu amigo está doente. Carcinoma espino-celular, diz o laudo médico que ele me mostrou. É uma mancha branca em meio a uma profusão de desenhos que, na chapa escura, reproduzem os contornos do seu pulmão.

Meu amigo está revoltado. Em alguns meses de quimioterapia --o suficiente para roubar-lhe todos os pêlos do corpo e deixá-lo bem abatido--, o tumor havia diminuído bastante, a ponto de o médico ter decidido encaminhá-lo para a cirurgia, que implicaria inclusive em remover parte de uma costela.

A revolta veio com a tomografia cerebral exigida pelo procedimento pré-operatório. Lá estava outra mancha branca, esta bem menor, minúscula na verdade, vejo eu na outra chapa, a levantar a suspeita de uma metástase.

Agora, o pior, segundo ele: a espera para saber se é mesmo uma manifestação remota do primeiro tumor. Pode ser uma veia estourada que não causou maiores seqüelas. Mas se for outro foco da doença, nada de operação e início de radioterapia no crânio...

Ele é mais que amigo, na verdade. Conheço-o há mais de 40 anos. É um cara forte e decidido.

Está aposentado e, junto com a mulher, muito mais ainda que uma amiga minha, estava na praia quando levou um tombo da bicicleta.

Primeiro diagnóstico absurdo no pronto-socorro: costela quebrada. Não era. Segundo, terceiro, quarto diagnósticos, para a dor que persistia, nunca chegaram a lugar nenhum.

Até que começou a surgir um caroço no tórax, saliente e estranho. Daí à ressonância reveladora foi finalmente um passo, surpreendente até para o médico, que não sabia como comunicar a ele: "Qual é, doutor, está com medo de me dizer que estou com câncer?".

Na visita que fiz a ele, estava realmente revoltado. Agora que o tumor tinha diminuído, apesar de a dor não ter passado inteiramente, agora que imaginava poder pôr fim à humilhante quimioterapia, que além de tirar os cabelos, comprometia o sono, e o apetite ("estou louco de vontade de comer churrasco, mas na hora 'h' enjôo..."), agora que ele estava mesmo botando fé na camiseta que usava naquele dia (com os dizeres "Câncer tem cura"), agora que estava super animado, vem a danada da mancha branca na cabeça.

Ele fala tranquilamente da doença, dos remédios que toma, das dores que sente e afirma que não tem medo de morrer, não, mas que essa situação acaba com qualquer um. Num momento revelador, diz que quer logo rever todos os amigos de quem gosta de verdade. Mas em seguida demonstra que não perde a força e a disposição de ir em frente.

Meu amigo me dá orgulho, apesar da tristeza.

Ali, carequinha e meio fragilizado, teimoso como sempre, remetendo a muitas histórias da minha própria vida, mas sobretudo evidenciando a transitoriedade a que estamos fatalmente sujeitos.

Na sua simplicidade, meu amigo é um exemplo, agora.

Obviamente ele vai morrer um dia, por este ou por outro motivo, e terá lutado muito e deixado um pequeno mas expressivo legado, de quem enfrentou a dor e o medo simplesmente porque a vida é assim, e assim será.

Aliás, o que me convenceu a contar a história do meu amigo foi a surpreendente naturalidade com que ele fala do seu problema e da sua batalha.

Sou de um tempo em que nem se pronunciava a palavra câncer, como se isso fosse aumentar a dor do doente ou contagiar quem estivesse por perto, contribuindo assim para estigmatizar ainda mais esse mal terrível.

Ao ver meu amigo partilhando sua sina, recebendo apoio, carinho e solidariedade, percebo o quanto isso irá ajudá-lo, aliás, o quanto já está ajudando.

É por isso que, repito, meu querido amigo me dá orgulho.

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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