Pensata

Luiz Caversan

20/10/2007

A culpa é do sistema

Minha amiga está tentando mudar o plano do celular há seis meses. Isso mesmo, seis meses para, simplesmente, passar do plano familiar para o empresarial (micro-empresa), mantendo os mesmos números.

A coitada já fez de tudo, falou com dezenas de vozes ocultas por detrás do serviço de atendimento mais humilhante que existe, que é o atendimento por telefone das operadoras de telefone, coleciona um monte de números de protocolos, já rezou, fez mandinga, e nada.

Até que resolveu partir para ignorância e escreveu para os serviços de reclamação de leitores de todos os jornais da cidade. E bastou que apenas um desses jornais entrasse em contato com a operadora para encaminhar a reclamação da moça para que tudo mudasse. Daí para frente, ou seja, diante da possibilidade de mais uma vez aparecer no noticiário por conta dos péssimos serviços que presta, a operadora procurou a cliente, prometendo, "em definitivo", resolver o problema. Mesmo assim foram dias de conversas, agora, ao menos, com uma pessoa com nome, sobrenome e telefone para retorno.

Tudo muito bem, tudo muito bom, até mesmo um consultor foi ao escritório da minha amiga para finalizar o processo (o que o medo da mídia não faz, não é mesmo?), quando, de repente, veio o alerta vermelho, trazendo à tona uma coisa mais infernal do que telemarketing ou atendimento de operadora de telefonia: o "sistema".

Desculpe, mas o sistema não está aprovando, disse o consultor para a minha amiga.

Como assim, não estava tudo certo?

Sim, mas sabe como é, o sistema é quem dá a palavra final...

Neste momento em que escrevo, minha amiga está lá, estressadíssima, tentando convencer o tal sistema, auxiliada pelo consultor, de que precisa e pode mudar o plano, de que tem todos os documentos, de que não deve nada para ninguém, de que tudo já havia sido aprovado pelos humanos...

Mesmo que vença a batalha inglória, terá sido derrotada. Afinal, foram dias, horas, incontáveis minutos de insistência, apelos, humilhações, tudo para ter aquilo que lhe é devido por direito de consumidor, além de viver o pânico de ter sua vida gerenciada por um "sistema" que ninguém sabe nem explica exatamente o que é.

Quem lida com computador, banco, tem cartão de farmácia, joga na Megasena etc., quantas vezes já não ouviu alguma coisa do gênero: desculpe, mas não dá para fazer sua aposta agora, porque o sistema está fora do ar. Desconto na farmácia? Não dá, estamos sem (sic) sistema... Posso ver o saldo da minha (minha!) conta corrente. Não é possível, ligue mais tarde, quando o sistema voltar...

Ah, ele saiu? Foi tomar um café?

Quando eu era jovem, rebelde e contestador, "sistema" servia para definir tudo o que eu e meus amigos queríamos mudar, o conjunto de mecanismos políticos, sociais e tecnológicos que massacrava o ser humano em suas mais autênticas e puras intenções de melhorar o mundo.

Livros, filmes, poemas denunciavam que estávamos todos sob controle de um ou qualquer um sistema, sendo o pior de todos o capitalista e, para os adeptos deste, o comunista.

Mas daí, e a gente foi se acostumando, vieram outros sistemas, como o sistema viário, para resolver os problemas urbanos hoje totalmente multiplicados; o sistema financeiro da habitação, que iria, mas não o fez, dar casas para todo mundo; os sistemas operacionais, como o deste computador que trava duas, três vezes ao dia, até chegarmos ao sistema de atendimento ao usuário, que enlouquece os que dele necessitam.

Se você usa telefone, banco, farmácia, Internet, TV a cabo ou seja lá o que for que inclua as maravilhas da informática que estão aí para nos servir, triste paradoxo, certamente estará nas malhas de um, dois, milhares de sistemas, em geral não-operacionais, que a cada dia que passa regem mais as nossas vidas, invadem nossa privacidade e nos desrespeitam como consumidores.

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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