Luiz Caversan
A depressão dos outros
da Folha Online
Estava assistindo dia desses ao DVD do filme "Bob", que conta a história do assassinato do senador e pré-candidato à presidência dos EUA Bob Kennedy, em 5 de junho de 1968, quando o tema depressão veio à tona.
O filme é composto de diversas histórias paralelas que confluem para o momento em que o senador, arauto da paz e do fim das desigualdades sociais e raciais no país, foi vítima da própria violência que combatia, pelas mão do jordaniano Sirhan Bishara Sirhan, de 25 anos.
Uma dessas histórias é a do casal composto pelos atores Helen Hunt e Martin Sheen, ela uma artista plástica capaz de ficar extremamente abalada e insegura porque se esqueceu dos sapatos que combinam com o vestido, ele um investidor sensível e apaixonado pela mulher.
Numa das cenas, o homem e a mulher estão na piscina do hotel Ambassador (onde Kennedy foi assassinado), quando ela pergunta sobre as sessões que o marido está tendo com um psiquiatra. Ele responde que está tudo ok, que apenas conversam sobre sua depressão. A mulher repreende o marido, exigindo que falasse baixo, como se "depressão" fosse um baita palavrão. Ele faz uma brincadeira, mas ela fica mais nervosa e passa a insistir que a "tristeza" do marido é, no fundo, sua culpa como esposa que não atende às necessidades do parceiro.
A cena termina por aí mesmo, e a mulher acaba, mais tarde, sendo uma das pessoas atingidas pelos tiros destinados a Kennedy.
Mas o que me chamou a atenção foram três aspectos do diálogo:
1 O tema depressão estar sendo tratado de forma comezinha já há 40 anos.
2 O temor da mulher de que as pessoas que estavam por perto pudessem ouvir que o marido ia a um psiquiatra tratar desse problema.
3 A mulher achar que é culpada pelo mal do marido.
O fato de se abordar a depressão num ambiente de 1968 pode ser, enfim, uma liberdade do roteirista do filme, introduzindo um tema tão atual numa trama de quatro décadas não que não houvesse depressão naquela época, mas não se tratava, certamente, de um problema que casais discutissem à beira da piscina.
Os outros dois aspectos, entretanto, são absolutamente pertinentes e, infelizmente, perenes.
Quanta gente até hoje se envergonha pelo fato de ela mesma ou alguém de sua família ter uma série de comportamentos "exóticos", incômodos, inoportunos, dolorosos, que muitas vezes são genericamente taxados de depressão? Quanta gente faz questão de enfrentar calada e sozinha sua dor, como se fosse portador de uma condenação pessoal, algo execrável pelo restante da sociedade?
Por último, quanta esposa ou quanto marido se mortifica ao pensar que aquela tristeza, aquele desânimo, as insônias, a inapetência generalizada de seu par se deve a algo que o companheiro fez, faz ou está deixando de fazer?
Desde que se tornou "moda", na última década, a depressão tem rompido barreiras do desconhecimento e da estigmatização social, o que satisfatoriamente colabora para o tratamento. Afinal, quanto antes souber o que tem, quanto antes começar a tratar, quanto mais apoio familiar tiver para enfrentar a doença e a dificuldade do tratamento, tanto melhor será a qualidade de vida do portador --isso eu ouvi de diversos psiquiatra e consta de qualquer livro a respeito do tema.
O que entristece é perceber que uma doença que exige sobretudo carinho, compreensão e solidariedade ainda permanece envolva em estigma e rejeição, sob um manto de desinformação e até ignorância, seja por parte de quem tem ou de quem não sabe o que fazer com a diferença do outro.
O que não justifica, é claro, a banalização dos diagnósticos e o consumo cada vez maior dos antidepressivos...
Mas estes são temas para um próximo artigo.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
