Luiz Caversan
Dentes e pescoços
Minha filha teve que arrancar o dente de siso. Não apenas um dente de siso, mas os quatro: estavam nascendo ao mesmo tempo, tortos, pressionando os que tinham chegado antes, doendo, inflamando etc.
O especialista achou melhor tirar logo, e todos de uma vez, para digamos assim resumir o sofrimento.
Acompanho tudo a uma desesperadora distância, e ponha distância nisso, porque minha filha vive no Canadá. Foi fazer intercâmbio há cinco anos, se encantou com aquele freezer cheio de gente simpática e por lá ficou.
Vem todo ano para o Brasil, chega daqui a menos de um mês, por isso resolveu logo deixar os sisos por lá, para chegar com a "boca toda" --trocadilho infame...
Por obra talvez dos ditames da globalização, no momento em que ela estava entrando na sala onde iria sofrer a cirurgia (tirar quatro sisos exige uma cirurgia com anestesia geral e tudo) eu me encontrava na sala de embarque do aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, retornando ao Brasil depois de uma semana de trabalho portenho. Falamos pelo celular, ela firme lá, eu morrendo de medo e com dor na boca do estômago. Fazia muito tempo que não rezava, e fiz isso várias vezes durante a viagem.
No desembarque, tudo tinha terminado e bem.
A distância, a falta do que fazer, de como ajudar, sem poder nem ao menos dar a mão à filha na hora da dor, não restou nada mais do que confiar no especialista que ela escolheu (o mais conceituado de Winnipeg, dizem) e na coragem da baixinha de encarar a barra sozinha, longe da família e dos amigos, contando apenas, o que não é pouco, vá lá, com o apoio do namorado.
Bem, como se dizia antigamente, é o surgimento do dente de siso que indica que a pessoa está pronta para encarar a vida adulta. Afinal, define o dicionário Houaiss, siso nada mais é que "boa capacidade de avaliação, bom senso, juízo, tino".
Agora, a filha está lá, toda inchada, decidindo se parece mais com o Fofão ou com o Kiko, amigo do Chavez e do seu Madruga. Acho que parece mais com o Fofão, e digo isso auxiliado por mais um milagre da globalização, que é o MSN com imagem.
Daqui do meu canto de pai aflito, vejo a imagem que aumenta a saudade e ao mesmo tempo conforta, da não mais menina, cheia de siso apesar de ter perdido os dentes, madura e certa do que quer. Chega em breve, para alegria de todos, e para ouvir, mais uma vez, o quanto se pode orgulhar dela.
Toca o telefone, meu melhor amigo, quarentão, ou seja, supostamente com siso: "Você não vai acreditar! Estou com caxumba!"
Diz que tudo começou com um caroço no pescoço e agora está todo inchado.
Ai, ai, mais um Fofão na parada...
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
