Pensata

Luiz Caversan

19/01/2008

A volta da velha senhora

da Folha Online

Naquela manhã, apenas outra manhã ensolarada e calorenta como o quê, verão paulistano de ares africanos, o tempo nublou de repente. Não, não se tratava de mais uma chuva das que transbordam a paciência do povo ilhado e retido nas lagoas das ruas blindadas de asfalto e cimento; não, a chuva, se viesse, seria à tarde, e era apenas mais uma manhã.

Ou melhor, seria apenas mais uma manhã, não fosse a visita inesperada. Inesperada não é bem o caso, porque uma vez tendo recebido a visita da "velha senhora" uma vez que seja na vida, há que se esperar que ela volte, e infelizmente ela acaba, de um jeito ou de outro, sempre voltando.

E eis que ela bateu à porta do quarto na manhã suarenta. Bateu e entrou sem ser autorizada, convidada, desejada, apesar de repelida, rejeitada, odiada.

Havia meses que ele nem mais pensava na velha senhora, aparentemente estava livre da sua presença nefasta. Já nem mais tomava remédio algum, as fluoxetinas ou ácidos valpróicos tinham ficado no passado, passado este que ele desejava ardentemente se tornasse mais e mais e mais remoto.

Triste engano.

"Velha senhora" era o apelido, o nickname que um amigo jornalista dera à depressão, presença renitente na vida dele e do amigo; uma senhora conhecida em toda a sua má personalidade, pode-se dizer assim, em toda a sua presença deletéria. "Às vezes, parece uma ave agourenta, que fica pousada no ombro, espreitando, à espera do momento certo para atacar", definira também o amigo, tempos atrás, tempos em que ambos se digladiavam para expulsar os tais agouros esses.

Mas naquela manhã todo o medo, todo o desalento, todo o cansaço inerentes à volta dessa visita indesejável instalou-se rapidamente, imobilizando-o, prostrando-o na cama, com todos os seus "predicados": ruminações, pessimismos, tristeza-que-não-tem-fim...

Depressão não se cura, convive-se, prognosticara o velho e bom especialista nos tempos mais difíceis, O importante é detectar logo e cedo a recidiva para enfrentá-la com energia.

Energia? Onde, cadê? O que menos se encontra a cada visita da desgraçada é isso, energia para dizer não, impor: sai desse corpo que não é seu, tire sua tristeza do caminho que eu quero continuar desfilando minha alegria possível e desejável.

Os dias, manhãs, tardes e noites, prosseguiram quentes e úmidos, agora acrescidos dessa manta de sentimentos confusos e sufocantes, tão mais sufocantes quanto o medo da sua permanência.

Mas eis que o tempo foi amainando, o calor meio que cedendo e uma luz por dentre as nuvens surgindo num lampejo de esperança.

Será?

Sim, a velha senhora começa a recolher seus trapos e, antes mesmo que o desespero se instalasse incontrolavelmente, toma rumo inesperado, afastando-se com sua sombra sombria e sua cauda arrepiante e definitivamente má.

Não foi o caso de exultar, comemorar ou quetais.

Um pequeno alívio apenas, ainda controlado e discreto, como que para não chamar a atenção daquela que ia e que nunca deveria ter vindo, voltado.

Voltará, sem ser autorizada, convidada, desejada, apesar de repelida, rejeitada, odiada?

Nunca se sabe.

Nunca se sabe quando, na verdade, porque sua sombra é um carma que ele, como tantos, carregará para sempre.

Fazendo de tudo para que, apesar de, a vida minimamente valha a pena.

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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