Pensata

Luiz Caversan

16/02/2008

Torquemada, padroeiro dos dentistas

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Falta de flúor na água das residências dos anos 50/60, excesso de chocolate, escovas e pastas de dente de baixa qualidade, ignorância e preguiça: talvez sejam os fatores determinantes para que, desde a mais tenra mastigação, freqüente assiduamente cadeiras de dentistas.

Provavelmente terei sido um dos últimos a receber os serviços do tenebroso sistema de baixa rotação, movido por um conjunto de braços articulados, roldanas, correias e motorzinho elétrico que doía até a alma. A água não vinha junto com a broca, mas era borrifada, quando o dente esquentava demais, por intermédio de uma seringa de borracha vermelha...

Logo nas primeiras cáries, porém, adveio a graça divina da alta rotação, que iria revolucionar o tratamento dentário, prometendo-o veloz e sem dor. Pura balela...

Muitos anos, muitos canais, um implante e muito amálgama com mercúrio, mas também muita porcelana insípida depois, eis que a boca ainda está cheia de dentes, mas boa parte garibada por uma dezena de profissionais do ramo.

A última destas autoridades bucais foi visitada justamente hoje mesmo. Coisa aparentemente simples: um dente que doía com água fria e comida quente, três raízes, portanto três canais a serem tratados.

Simples uma ova! O dito cujo era manhoso, tinha uma tal ramificação nervosa que levava a dor ao vizinho, como que querendo escapar da terrível broca flexível que cutuca até o cérebro.

Mas a doutora, um paradoxo de pessoa-dentista porque extremamente afável e simpática, não se deixou enganar. Esquentou e esfriou todos os dentes daquele pedaço, acompanhando atentamente meus gemidos agoniados, para detectar, sem erro, que era aquele ali o bruto, molarzão recentemente tratado, mas que não se deixou enganar e estava ali, firme, doendo como razão de sua existência.

O tratamento, talvez o de número mais que 100 em cinqüenta anos, só não foi totalmente desesperador por conta da simpatia da doutora, jovem talento da USP ora perscrutadora experta de condutos nervosos.

- Estou te torturando muito perguntou ela enquanto isolava a área do dente com um grampo que rememorava o garrote-vil da Guerra Civil espanhola, aquele que envolvia o pescoço da vítima para o estrangulamento lento, enquanto introduzia um espeto na nuca do infeliz. No caso aqui estrangulava gengiva e dente, sem dó, mas felizmente com anestesia.

- Imagina balbuciei, tentando lembrar o nome do célebre inquisidor espanhol que literalmente botou pra quebrar no século 13 e com certeza inspira os fabricantes de instrumentos odontológicos.

A parafernália dos dentistas de hoje em dia evoluiu muito se comparada à de décadas atrás, mas o que dizer da tal lima flexível para lixar o interior dos canais? E o motorzinho que deve ser usado em baixa rotação em determinados trabalhos? E o fio que eles enfiam entre o dente e a gengiva quando precisam moldar alguma coisa? Vai aí uma raspagem de tártaros? Ah, que tal a anestesia quase no céu da boca, para "isolar completamente" o infeliz do molar?

Torquemada perde!

Sim, é isso, Tomás de Torquemada, o chefão da inquisição, que comandou o auge do suplício dos hereges quando a igreja católica não tinha papas (ai!) na língua.

Não lembrei na hora do suplício o nome do homem para sugerir à minha dentista que o adotasse como padroeiro, mas agora há pouco mandei o seguinte e-mail para ela:

"Cara doutora, duas informações, uma útil, outra nem tanto:

1 - o dente não está doendo mais, nem com frio, nem com calor. Bingo!

2 - o ídolo máximo dos torturadores é o espanhol Tomás de Torquemada, nomeado inquisidor mor pelo Papa Sixto IV em 1483...

bom fim de semana!"

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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