Pensata

Luiz Caversan

29/11/2003

Pela vida

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Uma leitora mandou um desabafo dizendo que em pouco tempo a tragédia que se abateu sobre o casal Liana e Felipe seria esquecida pela mídia, sobretudo por aqueles programas ou veículos que estavam explorando de maneira sensacionalista a desgraça alheia.

Infelizmente ela tem razão, e uma das imposições mais desagradáveis desta profissão é a de ter de conviver com os urubus da informação, os carniceiros da notícia que se deleitam com violência e atrocidades em geral: pulam de um caso para outro como aves de rapina famintas e necessitadas de carne nova.

Agora, há o outro lado da moeda: esses jornalistas ou apresentadores de televisão só existem e sobrevivem porque têm público. Eles oferecem seu banquete grotesco porque há comensais, estabelecendo-se aí um círculo vicioso e viciado em que, sob a alegação de se estar prestando serviço público, o que ocorre é o atendimento, a domicílio, dos anseios mais execráveis daqueles que têm na tragédia um passatempo cotidiano.

Mas há o que se contrapor a esse tipo de "informação".

Por isso faço questão de reproduzir aqui trecho de artigo publicado na Folha pela médica e coordenadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, cidadã acima de qualquer suspeita quando se trata de remar contra a maré da perdição a que estão relegados nossos jovens e crianças _basta lembrar que por conta de seu trabalho a mortalidade infantil foi sensivelmente reduzida no país e que ela é sempre cogitada como candidata ao Prêmio Nobel da Paz.

Eis o trecho que merece reflexão:

"A construção da paz e a prevenção da violência dependem de como promovemos o desenvolvimento físico, social, mental, espiritual e cognitivo das nossas crianças e adolescentes, dentro do seu contexto familiar e comunitário. Trata-se, portanto, de uma ação intersetorial, realizada de maneira sincronizada em cada comunidade, com a participação das famílias, mesmo que estejam incompletas ou desestruturadas."

"A prevenção primária da violência inicia-se com a construção de um tecido social saudável e promissor, que começa antes do nascer, com um bom pré-natal, parto de qualidade, aleitamento materno exclusivo até seis meses e o complemento até mais de um ano, vacinação, vigilância nutricional, educação infantil, principalmente propiciando o desenvolvimento e o respeito à fala da criança, o canto, a oração, o brincar, o andar, o jogar; uma educação para a paz e a não-violência."

Não há como discordar de dona Zilda, escolada no trabalho à frente de mais de 200 mil voluntários.

Ela sabe que para mudar é preciso pôr a mão na massa; não adianta ficar esperando que o futuro melhor seja fruto apenas da nossa esperança ou da ação de "alguém" que faça o que deve ser feito.

A realidade nua e crua é a seguinte: as crianças e jovens pobres e miseráveis desse país são abandonados ao próprio azar tanto pelos governos quanto pela chamada sociedade civil.

Há ações isoladas, aqui e ali, como a de dona Zilda, e poucas outras. No mais, é a desesperança e a falta de perspectiva que impedem o surgimento de sentimentos básicos, como respeito à vida, solidariedade, fé numa vida melhor.

Por isso quero deixar aqui uma pergunta: o que devem fazer para mudar esse quadro aqueles que querem a pena de morte como a solução para um problema que eles não sabem ou se recusam a enfrentar?

*

Começamos a coluna com o e-mail de uma leitora, terminamos com o de outra. Esta envia a letra de uma música que certamente todos aqueles que já a ouviram, na potente voz do saudoso Tim Maia, de alguma maneira se identificaram com os versos cheios de carinho e emoção.

A música é "Gostava Tanto de Você", cuja letra reproduzo, com uma observação reveladora no final. Leia, por favor:

Não sei por que você se foi
Quantas saudades eu senti
E de tristezas vou viver
E aquele adeus não pude dar

Você marcou a minha vida
Viveu morreu na minha história
Chego a ter medo do futuro
E da solidão que em minha porta bate

E eu gostava tanto de você
Gostava tanto de você

Eu corro e fujo destas sombras
Em sonhos vejo esse passado
E na parede do meu quarto
Ainda está o seu retrato
Não quero ver para não lembrar
Pensei até em me mudar
Lugar qualquer que não exista
O pensamento em você

E eu gostava tanto de você

Gostava tanto de você...

Pois bem, de acordo com a leitora, essa música não é, como todos pensam, o resultado do final de um relacionamento amoroso, fruto da dor de cotovelo, não.

Ela simplesmente foi escrita por um pai cuja filha morreu precocemente...

Agora, sugiro que você releia a letra pensando nisso...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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