Luiz Caversan
Uma cidade para amar
Talvez nunca tenha havido, como agora, clima tão favorável, tanta disposição, tantos fatores positivos para que se consiga tirar a cidade de São Paulo do trilho que a tem levado cada vez mais em direção ao caos e à deterioração, à falta de qualidade de vida e à desurbanidade.
Foi possível comprovar isso na série de debates realizada pela Folha ao longo da semana, durante a qual se discutiu o que significa crescer, morar e envelhecer nesta cidade e, também, o que significa ser paulistano.
Sempre acompanhados de boa platéia --que enfrentava o trânsito desumano dos finais de tarde de chuva--, os encontros revelaram, sim, gente disposta a apontar uma infinidade de problemas, mas também a determinação dessas mesmas pessoas de se engajarem em iniciativas que redundem na melhoria da qualidade de vida da metrópole.
Um dos pontos que mais me chamou a atenção, por sua triste obviedade, foi a afirmação de que há mais de duas décadas quem manda nessa cidade tem voltado as costas para ela, fazendo de conta que não estavam inflando ao limite máximo tensões ocasionadas pela falta de planejamento, pelas opções urbanísticas equivocadas, pela especulação, pelo foco errado nos automóveis.
Fazia-se, ou faz-se, de conta que não há crianças nem idosos por aqui, que não há pessoas para morar ou trabalhar. Uma cidade de tolos, como disse o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que pensam que são os viadutos, os palácios e os automóveis a essência da urbe.
Em todos os dias de debates que acompanhei, no entanto, sempre houve os que, em algum momento, fizeram questão de declarar seu amor por São Paulo.
Isso lembra aquele velho chavão segundo o qual amor e ódio sempre caminham juntos, mas podia-se ver ali um lampejo de que, no caso, o ódio que leva à constatação crua dos problemas pode perfeitamente se aliar ao amor que conduzirá às transformações tão necessárias.
Os 450 anos da cidade podem significar esse ponto de mudança de atitude fundamental para a humanização da cidade que criamos.
Se não for assim, pobre de nós.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

