Pensata

Luiz Caversan

28/06/2003

Motocamicases

Publicidade

Desde que voltei a morar em São Paulo, há três anos, jamais consegui deixar de me espantar com a fúria dos motoboys da cidade.

Gente que mora fora daqui, ou que não costuma circular na região central, sobretudo nos principais corredores de tráfego, não tem a exata dimensão do que estou falando: é um verdadeiro terror.

São milhares de motos avançando pelos corredores que se formam entre os carros nas avenidas da cidade, numa fúria indescritível. Formam-se bandos, que se atiram, sobre os carros, fecham a passagem, assustam pedestres, arrebentam retrovisores, amassam latarias de veículos que ousam ficar em seu caminho. E ai daquele que tiver coragem de reclamar ou fazer algum gesto hostil. Mais de uma vez vi motoristas serem agredidos por motoqueiros rapidamente reunidos numa gangue corporativa.

Eles rompem a barreira dos engarrafamentos, e surgiram e se multiplicaram por causa disso: levam e trazem documentos, mercadorias, alimentos etc. numa velocidade que só suas motos e sua imprudência permitem. Matam-se para fazer isso. Literalmente.

Dados divulgados esta semana dizem o seguinte: em 2002 morreram 430 motoboys nas ruas de São Paulo. Ou seja, mais de uma morte por dia!

Além disso, diariamente cinco motoqueiros ficam gravemente feridos no trânsito; destes, não se sabe quantos aumentarão a estatística de óbitos...

E você sabe o que está sendo feito para resolver esse problema: nada.

Na verdade ninguém sabe o que fazer, porque os motoboys, também vítimas de sua própria estrutura de trabalho, conseguem evitar tranqüilamente a fiscalização --mesmo porque ela praticamente não existe-- e aumentam de número na mesma proporção em que o desemprego sobe --tem crescido e muito o número de novos motoqueiros autônomos oriundos do mercado de trabalho regular, que compram suas motos com o dinheiro da indenização e vão à luta, sem preparo, sem cautela, sem futuro.

Quem sabe quando estiverem morrendo dois, três por dia, Prefeitura, Estado ou quem quer que seja comece a pensar em como controlar, fiscalizar e mesmo proteger essa gente que, apesar de tudo, é trabalhadora e quer sobreviver.

Ainda que passando por cima dos outros.

*****

Foi surpreendente a reação ao artigo da semana passada, "Não conte com ninguém", em que eu, em última análise, fazia a defesa do individualismo como forma de proteção emocional em relação às injustiças que são cometidas cotidianamente contra quem quer compartilhar, doar, expor-se.

Entre prós e contras, restou o aprendizado de que ainda há, sim, gente disposta a dividir, mesmo que sejam dúvidas e inquietações.
Menos mal.

Menos mal.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca