Luiz Caversan
Ciberbeijos
Você sabe quais são as mais prováveis origens do beijo?
São três:
1 - nossos antepassados das cavernas, maltratados pela natureza inóspita, eram carentes de sal. Eles supriam essa deficiência lambendo a pele suada uns dos outros, de uma mesma tribo provavelmente, para assim absorver a substância vital ausente em sua dieta;
2 - nas noites das regiões mais frias do planeta, quem sabe lá pelos lados da Sibéria ou da Mongólia, os integrantes de uma comunidade ficavam muito próximos, respirando quase que boca-a-boca, para que o bafinho quente de um diminuísse a geleira do rosto do outro;
3 - sempre lá atrás no nosso passado, havia o hábito de os adultos de uma família mastigarem primeiro os alimentos para depois depositá-lo nas bocas das crianças pequenas, de modo a alimentá-las adequadamente.
Essas hipóteses, assim como outras peculiaridades relativas ao beijo, estão em um livro recém-lançado, autoria do jornalista Pedro Paulo Carneiro, que relacionou nada menos que 484 modalidades de ósculo.
Não tive ainda a oportunidade de ler o livro; apenas assisti a uma entrevista do autor na TV, o que me deixou muito curioso.
Gostaria de saber mais detalhes sobre essa atividade milenar, que segundo Carneiro adquiriu na Índia as características afetivas, emocionais e eróticas que ostenta até hoje.
Nem sempre o beijo foi uma forma de dar e receber carinho.
O popular selinho, por exemplo, aquele beijinho em que duas pessoas apenas encostam os lábios rapidamente. Ele tem esse nome porque era usado para selar um compromisso, em geral entre dois homens.
Carneiro garante que experimentou todas as formas de beijar de que trata em seu livro --que inveja!
E faz crítica a beijos famosos, imortalizados no cinema e que segundo ele não têm nada a ver. Como o ocorre entre os personagens de Clark Gable e Vivien Leigh em "E o Vento Levou". Ela está com o pescoço torto demais, diz o "beijólogo", com a cabeça forçada para trás pela suposta sofreguidão do mocinho, o que impediria a adequada oxigenação do cérebro e, portanto, o devido usufruto do momento.
Carneiro cita como exemplo de bom beijo aquele retratado na escultura de Auguste Rodin, obviamente denominada "O Beijo". Ambos os parceiros estão com as cabeças em posições corretas, sendo que a mulher comanda a cena, com uma das mãos na nuca do homem, orientando, ditando o ritmo e a performance do outro. Aliás, soube recentemente que pessoas interessantes valorizam bastante a nuca no jogo amoroso.
Os efeitos terapêuticos do beijo não foram esquecidos pelo autor do livro, uma vez que ele faz a relação entre esse momento de prazer e o aumento da produção de serotoninas, aquelas substâncias que aumentam no cérebro a sensação de bem estar.
Até de beijo ectoplasmático ele fala, uma vez que cita o histórico, e delicado, chega-mais entre Demi Moore e Patrick Swayze no filme "Ghost".
Estou curioso para saber se o autor do livro, que se chama "Dossiê do Beijo", dedicou algum espaço para o ambiente cibernético. Não há dúvida de que a maioria dos beijos --assim como otras cositas más-- ocorre hoje em dia via internet, seja através da mera formalidade dos e-mails cotidianos, seja por conta do empenho daqueles que buscam, e encontram, afeto, carinho e diversão no exercício da imaginação virtual, matéria prima de quem vive a rede mundial de computadores como uma família cada vez mais globalizada. Parece coisa de doido, mas garanto que é perfeitamente possível. E instigante.
![]() |
Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

