Pensata

Luiz Caversan

02/08/2003

O beijo da discórdia

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Dois namorados se encontram antes de ir ao cinema (iam ver "O Homem que Copiava", bom filme). Beijam-se e dão um abraço, como qualquer casal convencional.

Mas eles não são "convencionais", são gays, dois rapazes, e seu comportamento chama a atenção do segurança do shopping em que se encontravam.

Pronto, estava instalada a confusão.

O segurança afirmou que aquilo não podia, não. Os rapazes disseram que podia, sim.

Inclusive evocaram a lei estadual nº 10.948, de 2001, que prevê punição para quem "proibir a livre expressão e manifestação de afetividade" entre homossexuais, "sendo essas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos".

Sentindo-se discriminados, os rapazes (João, jornalista, e Rodrigo, publicitário) resolvem chamar a polícia e vão todos, ambos mais o segurança do shopping, para a delegacia.

O shopping, o Frei Caneca, conhecido ponto de encontro da comunidade gay de São Paulo, divulgou uma nota afirmando que não tem nada contra o pessoal, mas que os rapazes "cometeram excesso". Em entrevista a este colunista, João Xavier, o jornalista, disse que não houve excesso algum, apenas um beijo.

Quem o leitor acha que está com a razão?

Como determinar quando um beijo torna-se um excesso?

Para muitos, o simples fato de estar ocorrendo entre dois homens já tornaria qualquer beijo excessivo, proibitivo, impensável.

Para outros, homem com mulher, mulher com mulher ou homem com homem podem até dar nó de língua em público que ninguém tem nada a ver com isso.

O fato é o seguinte: independente do calor do beijo dos dois rapazes, o que ocorre é um ruído no processo em que nossa sociedade tenta lidar com a diferença, com a diversidade de posturas ou de orientações de comportamento.

Todas essas orientações devem ser respeitadas democraticamente, mas ainda é difícil para muitos aceitar numa boa um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo.

Falta de costume que gera constrangimento? Talvez. Mas um episódio como esse só vem reforçar uma situação inexorável: gays são cidadãos como qualquer outro e têm de ser respeitados em seus direitos, que com certeza vão se ampliar cada vez mais.

A sociedade tem que aprender a lidar com isso.

Não se pode, evidentemente, fazer de um episódio como o desse beijo um cavalo de batalha. Se houve alguma intolerância, ela deve ser combatida com firmeza mas sem exageros. Se houve algum excesso, que se admita o direito do outro de ficar incomodado.

Porque a convivência entre diferentes é assim mesmo, um desafio que deve ser encarado por todos, em que pesem justamente as diferenças de cada um.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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