Luiz Caversan
Amor e raquetadas
O assunto da semana --muito mais que Lula na ONU, claro-- foram as raquetadas que a professora levou do marido na novela das oito.
Exageros à parte --não precisava de tanto realismo numa cena que poderia ser sugerida e ainda assim causar o impacto desejado; mas o ibope exige o máximo--, essa história toda tem um fundo didático importante num país como o Brasil.
Não é novidade nenhuma que maridos espanquem mulheres, que mulheres ainda se mantenham submissas à violência doméstica e que tudo fique como está porque "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher".
Mas há duas considerações a fazer. A primeira se refere a uma espécie de armadilha dramática em que a novela se enredou, ao pintar o marido violento ora como um maluco de pedra, ora como um homem sedutor e desejado --desejado, diga-se por ninguém menos que a gostosinha da trama, que está pelada na revista "Playboy".
Ao perfilar dessa maneira o personagem, creio que se criam dois ruídos: 1º - o cara enche a mulher de porrada porque é louco. 2º - isso não é tão ruim assim, porque afinal ele acaba indo descansar, depois da batalha da raquete, nos braços da ruinzinha-mas-bonitinha.
A conclusão a que se pode chegar a partir daí é que tem que ser muito louco para agir daquela maneira e que aquele tipo de ação pode vir a ser premiada. Muito ruim, isso, do meu ponto de vista.
Mesmo porque a violência contra a mulher no Brasil é um tipo de atitude nem sempre relacionada a comportamentos esquisitos como o do rapaz da novela. Em geral, o espancamento é conduzido por pessoas ditas "normais", inseridas na sociedade e muitas vezes tolerada apesar de seu comportamento condenável ser notório. Esta é a segunda consideração.
Outro dia, estava lendo uma reportagem sobre as regras que os invasores de um prédio de São Paulo se impunham para manter a ordem na desordem, ou seja, na invasão. O "regulamento" do Movimento dos Sem-Teto proibia a entrada no prédio invadido de armas, drogas e bebidas alcoólicas, ordenava a preservação do patrimônio e não permitia agressões físicas e ofensas, "especialmente espancamento de mulheres e crianças".
Ou seja, o espancamento é, sim, uma atitude corriqueira, faz parte da cultura da predominância masculina, atinge classes sociais diversas, e, principalmente, não gera a imediata e firme repulsa que deveria gerar. Ainda é preciso se recomendar que não se espanque mulheres!
De qualquer maneira, mais uma vez a ficção presta serviço à realidade ao inspirar e estimular o debate em torno de tema importante na novela da oito.
Afinal, no ano passado nada menos que 288 mil mulheres prestaram queixa contra maridos violentos nas Delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo.
Se por um lado esse número gigantesco dá a dimensão cruel do problema, ao menos indica que as mulheres estão procurando uma maneira de se defender daquele que, de companheiro, se transformou no carrasco do dia-a-dia.
Menos mau.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
