Pensata

Luiz Caversan

11/10/2003

O mundo é uma bola

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Quando criança, tive uma grande crise existencial quando descobri que o universo não tinha fim.

Olhava para o céu e a idéia de infinito me massacrava: como pode alguma coisa não ter fim?

Tudo tem de ter um fim!

E ficava imaginando uma viagem em direção ao nada infinito, que nunca acabava, e aquele "monte" de nada a me cercar.

Quase pirei, nos meus dez, 12 anos, fui parar num psicólogo.

A bem da verdade, essa idéia nunca saiu da minha cabeça, apenas deixei de permitir que ela me dominasse e me pusesse ou em prostração ou em incontrolável ansiedade.

Outro dia mesmo falava disso, nenhuma explicação sobre a vida terá validade até soubermos de onde viemos e para onde vamos, até entendermos o que quer dizer o infinito do céu...

E agora me vêm esses cientistas loucos dizendo que o universo não só tem um fim como apresenta o formato de uma bola de futebol, cheia de gomos?

Desculpe o trocadilho, mas ora bolas!

Tantos anos de aflição e tudo não passa de uma bola.

Pronto, está explicado.

Claro que não vou querer saber o seguinte: se o universo é uma bola, quem segura a pelota no ar. Há ar fora da bola? O que existe além dos limites do seus gomos?

Bem, é melhor deixar pra lá, senão vai começar tudo de novo...

*

Foi agradavelmente surpreendente a reação dos leitores à coluna da semana passada, em que mais uma vez tratei das infinitas (!) possibilidade de (não) compreensão entre homens e mulheres.

Por que não nos entendemos --essa era a pergunta título da coluna, na qual apostava minhas fichas na evolução da sensibilidade masculina e na ampliação da generosidade feminina.

Eis que alguns leitores concordaram, outros nem tanto.

Publico a seguir trechos de alguns e-mails recebidos, pelos quais agradeço.

Fábia Scavone: "Muito interessante suas considerações sobre relacionamento homem mulher. Mas tenho algumas ressalvas.

Não acredito que as mulheres odeiem os homens. Não é isso.

O que acontece é uma mulher, que antes reinava no lar, e agora, cada vez mais, sai a campo para competir com homens. Fazer coisa de homem (como um mito). E não há qualquer modelo anterior para seguir. Então imitamos o que já está aí. Aí nos masculinizamos e perpetuamos o mundo criado pelos homens e para os homens.

Sem um modelo feminino, acontece o que não acontecia antes: a competição entre homem e mulher. E, devido à própria História, a mulher começa a achar que tem de superar tudo o que o homem foi capaz de fazer e, ainda, com uma obrigação inconsciente de ser melhor. Só que esquecemos que antes de sermos homem ou mulher somos humanos. Há poucas diferenças, na verdade. Mas é a competição que nos afasta e nos faz sentir medo.

Medo primal do abandono.

Medo do medo.

Precisamos é saber quem somos, como pensamos e como agimos e reagimos (ou não reagimos) com as circunstâncias que se nos apresentam a cada momento.

Quer mesmo conhecer alguém?

Será que realmente demonstra isso?

Ou pensa isso e age de forma afastar o outro?

É preciso haver envolvimento, aconchego.

Para receber é preciso dar, doar.

Tudo é troca."

Luciane Cristina de Oliveira: "A sua reflexão sobe os homens e mulheres modernos está até certo ponto correta, mas considerando o espaço que você poderia ocupar, poderia ter sido melhor trabalhada.

Quanto à arte de se dar bem, ultimamente tem se dado com pouquíssima frequência. As pessoas temem ser invadidas na privacidade, apostar na felicidade.

Particularmente, sempre vou apostar na minha, sempre vou dar a minha cara a tapa. A vida é um jogo, se apostarmos pouco, podemos somente ganhar pouco, tá certo que a perda será pequena; mas se apostarmos muito, as perdas serão grandes, mas o ganho também.

Imagina o quanto eu aposto?"

Vandique: "A mulher esta assumindo o papel do homem como disse e também na produção.

E gostou, porque, é obvio, começou a ganhar mais dinheiro.

Mas isso tem um preço.

Não acho que o homem esteja ficando bicha, as mulheres sim é que deixaram de ser presa e começaram a caçar.

Acho que essa união que você esta pregando nunca existiu na verdade.

Sempre foi uma espécie de submissão.

Mas é válida a analise.

Vamos ver no que vai dar.

Acho que o capitalismo tem na mulher um defensor muito mas radical que os homens.

Basta ver uma mulher no shopping center e depois a gana de trabalhar pra comprar aquilo que nós todos achamos uma porcaria..."

Thany: "Mais uma vez me vi intrigada pela sua coluna.

Admito: tenho medo de ser rejeitada e às vezes perco com isso.

Por que, mesmo os dois querendo, nada acontece?

Por que, se eu tenho certeza da reciprocidade?

Timidez, talvez. Quase certeza.

Espero que um dia melhore, ou simplesmente suma.

Homens e mulheres nunca se entenderão completamente.

Enquanto isso, enquanto espero que minha timidez suma ou que as relações mudem, nada mais faço a não ser pensar em suas palavras."

Anônima: "Gostaria de comentar alguns trechos do texto:

Bem, não sei se é mesmo ódio. Pode ser que seja. Algumas mulheres podem sentir raiva quando o homem não age da forma que elas esperavam que eles agissem. Talvez pelo fato de alimentarem muitas expectativas a respeito, acabam se desiludindo quando o resultado obtido não é o esperado. Outras mulheres ficariam tristes e deprimidas ao invés de sentirem ódio. Isso talvez poderia provocar a desistência de um futuro amor por parte delas.

Existem, também, as mulheres-vampiras, interesseiras, que estão sempre dispostas a "sugar" a bondade e boa vontade dos homens. Mas será que esse tipo não surgiu por conseqüência da atitude masculina (sem querer generalizar)?

Toda ação gera uma reação, não é verdade?

Não estou dizendo que nenhum homem presta, estaria cometendo uma grande injustiça, pois existem tesouros por aí, basta procurarmos bem pra encontrar. Assim como afirmo que existem mulheres que não valem um vintém.

Por outro lado, pessoas más existem para que possamos dar mais valor àquelas boas. Às vezes temos uma "jóia" ao nosso lado e não sabemos reconhecer a sua imensa importância. Nos damos conta disso quando perdemos esse alguém.

O que as mulheres querem afinal? Queremos nos sentir seguras, queremos ocupar o primeiro lugar na fila do coração masculino. Queremos ser amadas pelo que somos e não pelo que temos ou pelo que aparentamos ser.

E creio que os homens devem querer o mesmo.

Por que tanto estranhamento?

É angustiante você gostar de alguém e não ter coragem de se declarar, mesmo sabendo que esse alguém também gosta de você. Aí voltamos à questão das expectativas. Você imagina que a pessoa espera um tipo de comportamento seu e não quer desapontá-la. Nesse ponto já foram criadas várias barreiras "intransponíveis"! Como transpassá-las? Ainda não descobri. Coragem de enfrentar os próprios medos e anseios, talvez?

Falar é mais fácil do que agir.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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