Luiz Caversan
O papa pop
Fazia um frio danado, 10 graus, e o vento no estádio do Morumbi castigava a todos indiscriminadamente.
Na época, 1980, eu era repórter de arte e cultura de "O Estado de S. Paulo", mas havia sido deslocado para o esforço coletivo de cobertura da primeira visita do papa João Paulo 2º ao Brasil.
Em São Paulo, ele se encontraria com operários no estádio. Um imenso palco fora montado no centro do gramado e cantava-se "A benção, João de Deus...".
O gigantesco estádio estava completamente lotado, havia muita polícia e nós, jornalistas, a tudo assistíamos do setor das numeradas cobertas do estádio.
Havia algum desconforto no ar, afinal vivia-se ainda o regime militar (começo do período Figueiredo), e centenas de milhares de trabalhadores reunidos era uma coisa que continuava a assustar os poderosos de plantão, mesmo que a finalidade, naquele caso, fosse das mais pacíficas.
Já então, a apenas dois anos de sua eleição, João Paulo 2º era o papa popular --ou o papa pop da letra do rockinho do grupo Engenheiros do Havaí--, e todos nós tínhamos uma expectativa muito grande em relação àquele encontro: queríamos muito que ele "ficasse do nosso lado", ou seja, que nos apoiasse, a nós povo trabalhador, no confronto com a vida dura, endurecida mais ainda pela falta de democracia.
Nenhuma revolução surgiu dali, é verdade, mas o clima de emoção tomou conta de todos.
O operário responsável pelo discurso de agradecimento ao papa não conseguia falar, suas palavras eram interrompidas por soluços e pelo choro. O papa aquiescia carinhosamente, e o povo aplaudia.
Olho para o lado e, assim como eu, inúmeros colegas estavam com lágrimas nos olhos.
Fez 25 anos esta semana que o papa foi eleito, e ao ler o noticiário comemorativo me lembrei daquela tarde.
Veria o papa de perto, no Brasil, em suas duas outras visitas: em Salvador, 1991, e no Rio de Janeiro, 1997.
Fui a Roma várias vezes, mas nunca o havia encontrado por lá. Neste ano, a caminho do museu do Vaticano, tenho a Piazza San Pietro em meu caminho e pela primeira vez a vejo lotada de fiéis. Fico um pouco por ali e logo surge o papa, pobrezinho, alquebrado, sentado numa cadeira sobre uma plataforma móvel. Quando ele começa a falar, mal e mal entendo o seu italiano prejudicado pelas doenças que o castiga.
Apaguei logo a visão triste de minha memória, assim como recordo vagamente do que vi na Bahia e no Rio.
Prefiro me lembrar do papa pop dos anos 80, que nos deixava a todos com esperanças de que mudanças iriam acontecer, no Brasil, no mundo, e que a vida certamente melhoraria para todos.
Ainda que essa tenha sido apenas uma ilusão que foi levada pelo vento frio que varria o Morumbi naquela tarde.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
