Pensata

Luiz Caversan

25/10/2003

Um livro feminista

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"Malu de Bicicleta" é um romance moderno escrito por um autor moderno sintonizado com sentimentos contemporâneos.

"Malu de Bicicleta" é o mais recente (e não o último) livro de Marcelo Rubens Paiva, premiado autor de teatro, colega de reportagens da Folha e amigo do peito. O que não tem nada a ver com a seguinte avaliação: "Malu de Bicicleta" (Editora Objetiva, 222 páginas, R$ 28) é um livro muito bom.

O livro de Paiva conta a trajetória de um galinha, aquele ser desprezível que tem um único objetivo na vida: devorar mulheres.

Pretas, brancas, amarelas, cultas, burras, bonitas, nem tanto, necessariamente "gostosas", porque o galinha precisa que sua libido seja convencionalmente estimulada, ele precisa "comer" para sobreviver, e no exercício do que ele considera ser uma necessidade básica, vale tudo.

Aí é que ele entra pelo cano.

Aí é que o livro de Paiva se torna agradavelmente feminino.

Não porque tenha pena das mulheres abatidas pelo galinha, nem condescendência com sua má sorte.

A sorte das personagens femininas não é má, no livro, isso que é o bacana.

Basicamente ocorre o seguinte: o personagem central, o tal galinha, está contando sua história de conquistas e descartes para explicar, inclusive e principalmente a ele mesmo, como chegou a um tremendo beco sem saída.
Casou-se e tem certeza absoluta de que sua mulher, o amor de sua vida, aquela que o inspirou a deixar a galinhagem pra lá, está sendo infiel, na sua própria definição, dando para outro.

Ao longo do livro, portanto, os casos do rapaz vão se sucedendo, desde a iniciação com a empregadinha (obviedade necessária ao livro) até a tentativa desesperada de conquistar alguém que o "ajude" a se vingar da suposta traição da mulher.

Aparentemente, o cara sempre se dá bem.

Mas no fundo não é isso que acontece. Mesmo ao (do seu ponto de vista) satisfazer-se e descartar as moças, ele acaba sempre ficando em suspensão, perdendo alguma coisa em geral indescritível; acaba num vazio que não o situa em lugar nenhum nem mesmo em sua própria história. Quanto mais faz sexo mais desfaz sua própria personalidade. E as mulheres acabam sobrevivendo (bem) a ele.

Sempre há uma palavra, um gesto, uma ação das personagens femininas que relegam o galinha à sua sub-condição.

Quase sempre esses "toques" são absolutamente sutis, e isso dá um encanto especial à narrativa.

Às vezes é escancarado o desmascaramento do galinha --sobretudo na "comida" final do cara, e isso só serve para "amarrar" toda a intenção do autor e traçar, por intermédio de um personagem que no fundo é ridículo, um painel rico e ilustrativo da sensibilidade feminina, tema que tenho abordado com frequência neste espaço.

Como disse, é um livro sintonizado com o hoje, o agora, o momento atual das relações em questionamento, saudável questionamento de poses e papéis.

Deverá chocar um ou outro leitor mais pudicos com a linguagem direta, muitas vezes obscena, algumas francamente pornográfica.

Mas, para falar de amor e sexo da maneira como se fala neste livro, certas palavras devem obrigatoriamente ser ditas.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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