Pensata

Luiz Caversan

08/11/2003

Quem deve ligar no dia seguinte?

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Uma questão fundamental que se estabelece quando a relação entre um homem e uma mulher ultrapassa pela primeira vez a porta do quarto é a seguinte: quem deve ligar no dia seguinte?

Essa conversa surgiu outro dia no ambiente mais propício que existe para as discussões de cunho filosófico-socio-antropológico, que é, evidentemente, a mesa de um bar.

Trata-se de um tema aparentemte menor, mas que ajuda a revelar um dos muitos fios da emaranhada meada do relacionamento homem/mulher, e que surge em grande parte das vezes que o sempre momentoso tema sexo vem à baila: o day after, o que vai acontecer depois da consumação da invasão mútua da privacidade, com que cara cada um dos dois lados da moeda vai se apresentar, ou seja, quem será cara de cara lavada e quem será a coroa da dissimulação?

O homem deve ligar; trata-se de uma questão de cavalheirismo, de bom tom, diz a convenção firmemente arraigada no universo feminino, representado por uma jovem à mesa.

Deve obrigatoriamente ligar e, seja lá por qual motivo for, quem sabe a morte da mãe!, se não ligar é imediatamente classificado de canalha, diz um dos homens presentes, que completa: se a mulher acha isso tão importante, fundamental, por que ela não toma a iniciativa e telefona?

Ora, porque se ligar o homem vai achar que ela já está pegando no pé, quer casar, amarrar o cara, etc., resumindo: tudo aquilo que o macho solteiro heteresexual e urbano mais execra.

Isso pensa, e diz, uma das moças.

O debate esquenta: não custa nada ligar, avalia outra.

E se ligar pra dizer que não foi bom, questiona outro.

E o fato é que não há consenso.

Existe toda uma ritualística da aproximação, do envolvimento, da conquista e da consumação do afeto carnal, em que ambos os lados sabem bem os passos, como que de um balé, com pequenas variações na coreografia.

Mas na hora do aplauso, a coisa pega.

Na hora de encarar com naturalidade o entrelaçamento de intenções --sejam elas quais forem de parte a parte-- sempre há o enorme risco do comportamento-padrão esperado pelo outro pôr tudo a perder.

Ligar não ligar, esperar a ligação ou tocar a vida em frente como se a própria (in)satisfação devesse bastar, eis a questão.

Obviamente o ligar é a metáfora para o encaminhamento, para o futuro que todos nós queremos vislumbrar quando nos entregamos (ainda que devorando) a alguém. O problema é lidar com a ansiedade que necessariamente surge nesses momentos.

Ansiedade, que, por definição, nada mais é que o medo do futuro.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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