Luiz Caversan
Sem presentinho
Este ano eu havia decidido: não vou comprar presentes para ninguém. Ano difícil, pouca grana, aumento de salário abaixo da inflação, deixa pra lá o consumismo de fim de ano e vamos apenas nos dedicar à reflexão espiritual que uma data tão simbólica propicia.
Não há sobre a Terra quem possa ignorar a importância do nascimento de Jesus. Se não do ponto de vista estritamente religioso, pelo menos por questões históricas. Se não existe a fé no salvador dos cristãos, não pode deixar de haver, no entanto, a constatação e o respeito pela trajetória do homem que dividiu a humanidade em duas fases absolutamente distintas, antes e depois de suas palavras voltadas para o amor, a solidariedade, o perdão.
São preceitos comuns a muitas outras religiões, para não dizer todas, porque não as conheço. Estão no islamismo, no budismo, no espiritismo e tantas mais. Mas, pela força da popularização das escrituras cristãs e pela disseminação dessa fé em um terço da humanidade, ela é tão digna de nosso respeito, e o Cristo, no mínimo de nossa admiração.
Ainda que, como andava pensando esses dias em que resistia às compras de Natal, nem essa religião (como de resto nenhuma outra) tenha sido suficiente para contrapor seus preceitos tão altruístas às diatribes da humanidade moderna.
Prega-se o amor, odeia-se cada vez mais. Propugna-se a solidariedade, o individualismo é evidentemente chocante. Propõe-se o perdão, mas é a vingança que prevalece. No terceiro mundo, na África, no Oriente conflagrado (ainda mais lá, onde a religiosidade paradoxalmente é combustível par a explosão bélica), mesmo nos países desenvolvidos e neocolonialistas em relação às suas populações importadas. Em todo canto nega-se a todo instante o que livros e pregadores teimam em apontar como o caminho a ser seguido em direção à paz.
Constatações ingênuas, estas, sem dúvida. Sempre foi assim e não há indícios de que vá mudar.
Mas acredito que se deva insistir na reflexão, ao menos para resistir, ainda que temporariamente, ao ímpeto de encarar o Natal apenas como aquela data em que temos de nos enfiar em lojas lotadas, enfrentar filas e empurrões para, de pacotinho colorido na mão, podermos enfim desejar felicidade ao próximo.
Não, é possível ser de maneira diferente.
Basta dizer, de coração, que estará dito.
Que assim seja, aqui.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

