Pensata

Luiz Caversan

10/01/2004

O medo de todos nós

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Pesquisa internacional revelou por esses dias que o mundo tem medo de si mesmo.

Ou seja, tem medo da insegurança que ele próprio, o mundo, está cevando e que deixará de herança para a próxima geração.

Foram ouvidas mais de 40 mil pessoas (representando mais de 1 bilhão de terráqueos) em 51 países.

Desse mundaréu de gente que falou, 48% disseram que caminhamos para a insegurança cada vez maior, enquanto apenas 25% acreditam que nosso planeta se tornará um lugar mais seguro.

Como medo do futuro é sinônimo de ansiedade, rapidamente me deixei contaminar pelo clima que exalava da pesquisa e fui, decididamente ansioso, buscar a parte que nos toca nesse universo de opiniões pessimistas.

Ou seja, fui ver o que dizia o povo da América Latina, Brasil incluído.

Qual não foi minha surpresa (na verdade não foi surpresa nenhuma...) ao constatar que nosso país não fora incluído na enquete, apenas quatro vizinhos --Argentina, Equador, Peru e Uruguai.

Engraçado, mas a impressão que tenho é que sempre o Brasil é deixado de fora nessas horas, quando se fala de coisa séria, de futuro da humanidade etc. Não importa que tenhamos várias vezes mais habitantes do que toda a população dos países latino-americanos pesquisados; que nosso território seja muito maior; que nossa economia esteja melhorando; que nosso presidente seja (agora) famoso no cenário político internacional.

Não.

Essa ausência na pesquisa me levou, no entanto, a elocubrar sobre o que diriam os brasileiros sobre o tema insegurança no futuro.

Será que nós, que fomos até três décadas atrás o "país do futuro"; nós que não perdemos oportunidade de festejar a vida e a alegria de estar por aqui, sob o sol que Deus nos deu e sempre que possível nos esbaldando nas nossas praias maravilhosas, também somaríamos vozes à dos que têm medo?

Ou ainda restaria nas almas dos que andam por aqui a convicção de que Deus é brasileiro, afinal, e que, sob a proteção de Jesus, Nossa Senhora Aparecida e Oxalá, seguiremos em frente e sempre?

Preferi, ao final de muita encucação, achar que sim, que seria muito bom não se deixar contaminar pelo clima que, constata-se estatisticamente, predomina no planeta.

Mesmo que seja para viver um pouco mais --sabe-se lá até quando-- a ilusão de que há paz.

  • Levei uma baita bronca de diversos leitores por conta da minha crônica anterior, na qual relatava a agonia de um bem-te-vi na árvore em frente à minha casa, sem que tivesse tido coragem de acionar os bombeiros para salvá-lo (ver coluna anterior).

Já não bastava a minha impotência diante do ocorrido, da culpa por ficado impassível (ainda que aflito) e ainda vieram as broncas.

Nunca mais deixarei de, mobilizando quem necessário for, tentar salvar qualquer bichinho em perigo.

Prometo.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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