Luiz Caversan
Saudades saudáveis
Na profusão de informações sobre os 450 anos de São Paulo --das quais sou praticamente obrigado, por força do trabalho que desenvolvo no dia-a-dia, a me inteirar plenamente-- chama atenção o tom saudosista que os mais velhos empregam para se referir à metrópole maltratada de hoje.
Saudosista no bom sentido, se é que se pode dizer assim. Porque para mim saudade é sempre uma referência que surge para ajudar a melhorar o presente ou preparar o caminho para o futuro. É boa e útil, pelo menos deveria ser.
Mas o ponto a que quero chegar é o seguinte: vira e mexe surgem recordações de como São Paulo era chique. Não necessariamente rica, mas bem arrumada, elegante. Há referências recentes a isso em declarações do publicitário Francesc Petit, da atriz Lolita Rodrigues, e também do artista plástico Emanoel Araújo ou do admirável arquiteto Paulo Mendes da Rocha.
Como bem notou Petit, de memória sempre apurada, assim como o bom gosto, a elegância não era um predicado exclusivo dos mais ricos, mas identificável por exemplo na indumentária dos proletários dos anos 50.
As fotos de época, como as que o talentosíssimo artista Carlos Moreira está expondo na Pinacoteca do Estado, sob a curadoria sempre irrequieta e sagaz de Diógenes Moura, também dão conta disso. Você pode gostar ou não, mas havia, na maioria das pessoas, estilo, composição e apuro no vestir, do qual transpirava sem dúvida um ar europeu.
Ar esse que a cidade emanava até o começo dos anos 1960, quando tudo começou a mudar de forma vertiginosa.
Um outro detalhe que me remete passado apagado pelas transformações é na verdade uma bobagem, mas talvez alguma gente possa sentir o mesmo que eu, ou seja, uma doce nostalgia da urbe amigável.
Trata-se dos paralelepípedos.
Ninguém tira da minha cabeça que a cidade foi se tornando cada vez mais suja na medida em que os blocos de pedra seguiram sendo substituídos pelo asfalto, preto, sujo e fedorento.
Nunca vou esquecer o barulhinho do deslizar dos carros sobre as pedras lisas que, além de não produzir fuligem, não isolavam totalmente a cidade da terra, permitiam o escoamento da água, como que oferecendo à metrópole o direito de respirar, o que lhe é negado hoje em dia.
Em ruas menos trafegadas, chegava até a surgir uma graminha, não raro pequeninas flores, na greta dos blocos ligeiramente afastados.
Detalhes, lembranças idiossincráticas, talvez, mas acredito na importância de sua sobrevivência, ainda que seja para nos alertar para como vamos, cada vez mais, em direção à deterioração urbana e à perda da qualidade de vida nesta metrópole tão festejada.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
