Pensata

Luiz Caversan

12/05/2001

Gal Costa tem o direito de falar bobagens

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Eu havia prometido a mim mesmo que não iria entrar nessa pendenga do apoio das personalidades baianas ao senador Antonio Carlos Magalhães.

Mas o fato de muita gente ter começado a falar de "patrulha ideológica" me fez mudar de idéia.

Afirmar que quem discorda das declarações de Gal Costa a favor de ACM está fazendo "patrulhamento ideológico" àquela senhora é um equívoco. Um equívoco histórico, inclusive, porque o tal do patrulhamento ideológico tem raízes e contextos bem mais profundos.

A expressão surgiu no final dos anos 70 (ou já seria 1980?) numa entrevista do cineasta Cacá Diegues à crítica de cinema Pola Vartuck, em "O Estado de S. Paulo". Na entrevista, Diegues acusava segmentos da esquerda brasileira de exercer um patrulhamento ideológico _ pressões diversas, acusações de traição e boicotes _ sobre aqueles que não rezassem pela cartilha do permanente posicionamento contra o então vigente regime militar.

Era assim: todo mundo deveria (em atos, palavras e obras de arte) ser contra. Quem não agisse dessa maneira atraía a ira daqueles que se julgavam os próceres da resistência à ditadura.

E advinhe quem foram as principais vítimas desse patrulhamento?

Dois baianos: Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Os tais patrulheiros de então ficaram furiosos com os dois baianos (que foram atacados em reportagens de revistas e durante shows, por exemplo) simplesmente porque ambos se recusavam a fazer o que se poderia classificar na época de arte engajada, de "protesto" ou de "contestação".

O ápice do patrulhamento ocorreu quando, enquanto a repressão política comia solta, Caetano saiu com um disco cuja música principal dizia: "Deixa eu dançar/ pro meu corpo ficar odara..."

"Como assim, dançar? Que odara, que nada", rugiam, furiosos, os revolucionários de botequim, viúvas de Geraldo Vandré e seu "caminhando e cantando e seguindo a canção..."

Foi um quiproquó, uma discussão que parecia interminável, mas que se demonstrou um divisor de águas na conceituação do papel político e estético da arte e da necessidade ou não de o artista pautar obrigatoriamente sua atuação pelas circunstâncias sócio-políticas.

É um momento histórico, portanto, que marcou para sempre a música brasileira e a cultura nacional.

Daí a minha preocupação com o fato de se estar falando de patrulhamento ideológico sobre a Gal Costa porque ela teve uma atitude apenas sabuja e infeliz em relação ao ACM e foi chamada de "burrinha" pelo Jards Macalé.

Nada a ver com patrulhamento, com ideologia, com a postura cultural e com a manifestação democrática da criatividade.

Trata-se apenas de posição pessoal, com a qual se pode ou não concordar.

Se a Gal quer agradar seu "painho" apesar de sua atitude condenável; se dona Canô, mãe de Caetano Veloso, diz a "O Globo" que "não importa se um amigo é ladrão", problema delas, assim como é de Emerson Fittipaldi o ônus de ter se apoiado publicamente ACM por causa dos seus interesses automobilísticos na Bahia.

Concorda-se ou discorda-se, particular ou publicamente, e isso nem chega perto de um debate ideológico cultural.

Levar essa discussão para o mesmo campo da polêmica de duas décadas atrás seria reduzir aquele momento importante da cultura brasileira a um assunto menor, ridículo até, que é o apoio dessas pessoas a um político obviamente metido em falcatrua.

Respeitemos, pois, o sagrado direito das pessoas dizerem bobagens.

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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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