Pensata

Luiz Caversan

21/03/2004

Anúncio de bêbado não tem dono...

Publicidade

Tenho me divertido muito com a falsa polêmica criada em torno do sambista que largou a cerveja S para, com o bolso cheio de grana, falar bem da cerveja B.

O festival de hipocrisia assolou os meios de comunicação após o incidente é de matar.

Traição, bradaram uns. Vendido, reclamaram outros. E a ética, perguntaram alguns mais ofendidos com a malandragem do sambista misturada com o oportunismo do publicitário responsável pelo golpe --golpe aqui no bom sentido, entendido como golpe publicitário.

Porque o que aconteceu foi isso mesmo, mais um golpe publicitário.

Quem paga mais chora menos, essa é a moral do capitalismo que se praticou aqui.

Ou não?

Ou as agências de publicidade já estão se recusando a fazer anúncios de cigarros e, assim, deixando de ajudar as pessoas a morrerem de câncer?

Vão devolver os milhões que ganharam quando a propaganda de cigarros era completamente liberada?

Ou a cerveja S iria, na próxima série de anúncios que pretendia fazer com o sambista Z, alertar seus consumidores de que ele, Z, costuma freqüentar clínicas de desintoxicação para tentar se livrar dos malefícios do álcool?

Ou a cerveja B pretendia convocar o craque Ronaldo na TV para dizer aos seus milhares de fãs mirins que beber faz muito mal para saúde, em vez de exaltar as maravilhas da loura gelada?

Assim como quase tudo na vida, a publicidade não é, nunca foi e nunca será uma atividade completamente honesta. Se não mente descaradamente sempre, em geral oculta o que seu produto tem de ruim ou ocasiona de dano.

Assim é que, fora a choradeira de quem perdeu o garoto propaganda, não há crise alguma, e todo mundo entendeu que a atitude do sambista, hipocrisias à parte, se deu dentro da mais perfeita consonância com a moral vigente.

Além do que, como disse um gaiato carioca, anúncio de bêbado não tem dono...

  • Depois que o texto acima foi escrito, o cantor Z deu entrevista à revista "Veja", em que disse basicamente o seguinte: assinou um contrato com a cerveja S, mas não leu o que estava escrito; afirma que seguiu um contrato "verbal" em que se compremetia apenas a "experimentar" a cerveja S; diz ainda que foi "traído" pela cervejaria, que exigiu que ele, ora vejam, cumprisse o contrato firmado. Por ter sido "traído" deu-se o direito da "traição".

Então tá...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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