Luiz Caversan
Guerra cotidiana
Rio de Janeiro. Como sempre, gente bacana, paisagens maravilhosas, praias limpas e de águas surpreendentemente quentes.
Diante de generosidade abundante, fácil esquecer que esta é uma cidade conflagrada.
Mas, quando menos se espera, a violência explode, incontrolável, cruel e assustadoramente próxima.
"De novo", repetem desconsolados os cariocas, diante de mais
um tiroteio com vítimas inocentes de uma família destroçada.
A Rocinha, a maior favela da cidade, talvez a maior do
Brasil, com seus quase 60 mil moradores, está em guerra.
Trata-se de uma guerra cotidiana, que percorre as vielas e
becos em geral na surdina, mas que agora explode com rajadas
de tiros que entram na segunda noite.
Logo ali, ao lado do morro Dois Irmãos, tão lindo... Sim,
pertinho da bela praia de São Conrado, encravada na floresta
da Tijuca, a única floresta urbana do mundo, a favela é o
palco desse triste espetáculo, que submete a população acuada
a mais provação, como nem sequer conseguir chegar em casa.
O Estado --neste caso a polícia do Rio de Janeiro-- é incapaz
de cumprir de forma permanente seu papel básico: coibir
crimes, garantir direitos.
Não consegue acabar com a disputa de traficantes por
território. Não consegue proteger o restante da população
desses criminosos. Não garante o direito de ir e vir, muito
menos o direito à vida.
Enquanto isso, uma figura histriônica faz papelão diante de
todos, tentando de qualquer maneira faturar politicamente em
cima da desgraça alheia. Anthony Garotinho, ex-governador,
atual primeiro-marido, posa de chefe de polícia e cai numa
armadilha que sua incontível sede de mídia criou: aparece
diante dos holofotes para apresentar um grande feito, a
prisão de um assassino cruel, que no final das contas parece
não ser nada mais que um pobre desequilibrado.
Agora Garotinho diz que foi induzido a erro pela própria
polícia.
Triste figura...
E quem paga o pato é essa cidade tão linda e tão sofrida, que
em vez de ter um Estado que a proteja, vive à mercê do erro e
da incompetência.
Com direito a muita bala perdida.
*
Mais leitores escrevem para contar casos e experiências
envolvendo a depressão. A um só tempo, tristeza e alegria: a
tristeza de conhecer mais detalhes de um transtorno tão
imobilizante, que submete suas vítimas a provações tão
terríveis; a alegria de conhecer casos de superação, de força
de vontade e luta contra essa doença, contados por pessoas
que agora querem ajudar, com sua experiência, aqueles que
ainda batalham por um pouco mais de luz.
É gratificante.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

