Pensata

Luiz Caversan

24/04/2004

O Haiti é aqui

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Mais de uma dezena de mortos em plena zona sul do Rio, mais de duas dezenas de garimpeiros massacrados por índios na selva amazônica, mais de uma dezena de presos mortos em Rondônia, alguns deles degolados por seus companheiros como se fossem, na descrição de uma testemunha, "galinhas".

E dizem que a guerra é no Iraque, que a miséria e a barbárie estão no Haiti.

Não, ainda uma vez é preciso dizer, como o fez Caetano Veloso anos atrás, que o Haiti é aqui.

O governo Lula disse que mandaria uma força de paz ao Haiti para ajudar na reconstrução do país. Agora titubeia, diante do preço da fatura: R$ 300 milhões. Com esse dinheiro, que não é suficiente para reconstruir aquele país, seria pelo menos viável retardar um pouco mais a destruição do nosso, pôr um pouco de ordem na guerra do tráfico do Rio, para um mínimo de proteção à população ilhada e humilhada.

Até abomináveis minas terrestres, a mais covarde das mais covardes das armas de guerra, foram detectadas por aqui nesse abril despedaçado.

Os fatos registrados no garimpo e no presídio de Rondônia chocam, enojam, repugnam.

A guerra diária da Cidade Maravilhosa deixa as pessoas de bem do Rio, além de indignadas e acuadas, tristes e desacorçoadas. Tristeza que nos contagia a todos.

Sob o título "Quase gente" publiquei nada menos que nove anos atrás um artigo na página 2 da Folha no qual abordava a conflagração eterna dos morros do Rio e fazia referência à música de Caetano, "Haiti".

Reli esses dias o texto, infelizmente muito atual. Para quem tiver curiosidade de constatar que quase nada mudou numa década inteira:

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Quase gente

Luiz Caversan

RIO DE JANEIRO - Dez pessoas são fuziladas num morro durante um baile. Uma delas tem 11 anos de idade. Outras três estão hospitalizadas, a que está em estado mais grave é uma menina de 15 anos, grávida.

E daí? É tudo traficante, tudo preto, tudo pobre.

Só a menina de 11 anos não era ligada ao tráfico, garantiu o general secretário da Segurança do Rio. Será? E se ela fosse um "avião"? Os tiras assistentes do general podem explicar para ele que "avião" é a criança que leva e traz a droga no morro. Ora, general, pode dizer que era tudo traficante, mesmo, que tudo bem, a maioria não liga.

Afinal, como poetou Caetano Veloso em sua infelizmente clássica "Haiti", ali todos são "quase pretos de tão pobres/e pobres são como podres/e todos sabem como se tratam os pretos"(...).

E já que eram todos quase pretos e "todos ligados ao tráfico", pouco importa quantos tiros levaram, se tinham ficha policial, se trabalhavam, estudavam, se comiam, vestiam, se moravam, se sorriam, procriavam, se viviam.

Vida besta, aliás, de subgente, quase gente que não pode morrer fuzilada porque vira automaticamente traficante. Nada mais existirá na medíocre história de suas vidas senão o fato de se converterem em traficantes de drogas.

Não pode morrer assim, de repente. Tem que viver a miséria do morro, da ausência de tudo, quietinha lá no seu canto enlameado pelos excrementos da não-cidade. Ora, vejam só: morrer com um estardalhaço desses, logo dez de uma vez, durante uma porcaria de um baile barulhento. Não conhecem seu lugar, não? Façam o favor...

Esse tipo de equilíbrio demográfico deveria acontecer na boa, sem alarde, discretamente. Assim como apareceu no noticiário da TV: entre a previsão do tempo e a dica para o passeio na zona sul. Devia ter só zona sul, onde tudo é bacana. Longe da quase gente que insiste em invadir, com sua mania de ser fuzilada, o feriadão desse povo ordeiro e trabalhador.

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A propósito do artigo aqui publicado na semana passada, em que fiz a elegia das crianças, a leitora Christiane Duarte da Encarnação, funcionária do Ibama em Minas Gerais, mandou um ótimo texto sobre a relação infância/meio-ambiente. Com a autorização da autora, reproduzo a monografia:

A INFÂNCIA JUNTO À NATUREZA

Resgatando a nossa afirmação de que começamos a construir nosso processo de envelhecimento ao nascermos, vimos discorrer sobre a importância de uma visão holística e ecologicamente sensível no desenvolvimento infantil, e que se refletirá em todas as fases de desenvolvimento subseqüentes. Principalmente a segunda infância (dos 6 aos 12 anos), é considerada como crucial, não apenas para o desenvolvimento saudável subseqüente do indivíduo, mas também para a recuperação de relações sustentáveis com o mundo natural (Hutchison, 2000).

A visão holística do desenvolvimento infantil tem uma longa e rica história, cujas raízes vêm do século XVIII, com vários educadores. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), por exemplo, entendia que o contato sensorial direto com o mundo natural, tanto na primeira como na segunda infância, era decisivo para o desenvolvimento saudável da personalidade. Já Johann H. Pestalozzi (1746-1827) incorporou este sentimento aos seus experimentos didáticos e foi o pioneiro no estudo do espírito ou sentido do lugar ("sense of place") na infância, fazendo com que seus alunos explorassem o terreno e a topografia de ecossistemas locais. Hutchison (2000) declara que "conhecer o próprio lugar é ter um conhecimento íntimo do ambiente local (tanto natural como construído) e dos vários papéis profissionais, das histórias compartilhadas e dos relacionamentos interdependentes que sustentam a comunidade a longo prazo."

Friedrich Froebel (1782 1852), um dos alunos mais respeitados de Pestalozzi, veio consolidar a relação criança/natureza de modo integral. Ele é conhecido como o fundador do jardim de infância e introduziu neste relacionamento um terceiro fator, espiritual, formando uma conexão tripla entre humanidade, natureza e espírito.

Outros educadores trabalharam nesta linha de pesquisa, como: Maria Montessori (18701952), Rudolf Steiner (18611925), Edith Cobb (18851977) e Paul Shepard (19251996). Steiner foi o fundador da primeira escola Waldorf, na Alemanha. Os jardins de infância das escolas Waldorf incentivam o uso de materiais naturais não-acabados, como pedras, conchas, varetas, argilas, tecidos, papel e madeira, que operariam em um nível subconsciente para reforçar sutilmente a identificação da criança com a natureza. Além disto as crianças trazem sua própria imaginação aos materiais lúdicos.

Cobb entendia que o desenvolvimento na infância não é simplesmente um fenômeno de crescimento, mas também uma forma de tendência evolutiva."Os esforços da criança são um reflexo microscópico dos mesmos impulsos para a experimentação com a criação de formas, na natureza" (Hutchison, 2000). Ela também desenvolveu a análise de uma coleção extensa de biografias e autobiografias e descobriu que várias pessoas, principalmente artistas e pensadores criativos, mencionavam alguma forma intuitiva de experiência marcante na infância relacionada a "resposta sensorial intensa ao mundo natural". A citação de Bernard Berenson sobre uma vivência junto à natureza é de uma sensibilidade e beleza enternecedoras:

"Enquanto observo minhas recordações de 70 anos de consciência e recordo os momentos de maior felicidade, vejo que esses eram, em sua maior parte, momentos em que me perdi quase completamente em algum momento de harmonia perfeita....Na infância e na juventude esse êxtase me dominava quando eu estava feliz, ao ar livre. Será que eu estava com cinco ou seis anos? Certamente não tinha sete. Era uma manhã no início do verão. Uma névoa prateada podia ser vista, tremeluzindo sobre as limeiras. O ar estava carregado com a fragrância dessas frutas. A temperatura era como uma carícia. Eu me lembro não preciso fazer esforço para recordar que escalei um toco de árvore e senti de repente que submergia em um estado de ser a própria coisa. Na época não chamei assim essa sensação. Não havia necessidade de palavras. As coisas e eu estávamos em uma união completa."(Hutchison, 2000, pg. 107; Cobb, 1993, pg. 32).

Um poema taoísta, também transmite o mesmo sentimento marcante de unidade com a natureza:

Sentamos juntos, a floresta e eu.

Fundimo-nos no silêncio,

Até que só houvesse floresta.

Paul Shepard (1982) também compartilhava com Cobb a idéia de que "a criança aprende que toda forma de vida lhe diz algo e que todo som desde um sapo cantando até a espuma do mar vem de um ser semelhante e significativo para ela mesma, que conta alguma história, dá alguma sugestão, imita algum ritmo que a criança deve conhecer".

Na Educação Holística há uma forte ênfase sobre o desenvolvimento social, intelectual e espiritual da criança. Há um foco sobre a relação crescente da criança com o mundo, especialmente com o mundo natural. Sendo um fenômeno recente, a Educação Holística, está limitada a escolas alternativas, onde a avaliação do aluno se dá através de formas não-formais, com grande ênfase em análises qualitativas. O objetivo principal é ajudar os alunos a desenvolver o conhecimento, as habilidades e os valores necessários ao crescimento pessoal, além da escolaridade formal, e responder adequada e sustentavelmente às mudanças globais.

Hutchison (2000) afirma que as crianças têm uma posição singular para exercer um papel integral na mudança do curso da história humana e da Terra. Acrescenta também que a flexibilidade de resposta infantil à mudança, sua tendência de admirar-se, sua curiosidade natural e a necessidade de moldar um relacionamento inicial com o mundo podem, juntos, servir como ponto crucial de intervenção para ajudarmos as próximas gerações a construírem um relacionamento sensível com o mundo.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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