Luiz Caversan
Homens sensíveis
Por motivos diversos, o tema "homens sensíveis", de novo, passou pelo meu caminho, nada menos que três vezes esta semana.
Primeiro, por intermédio de um chat em que mulheres de diferentes idades, cidades, profissões e temperamentos discutiam o momentoso assunto, que está nas revistas, nos comerciais de TV e na mídia em geral.
Confesso que fiquei encantado com a experiência assim, digamos, antropológica.
Protegidas pelo anonimato, as moças soltaram o verbo. Como essa é uma coluna "família", não dá para reproduzir "ipsis literis", mas o teor da grande maioria das observações é o seguinte: homem tem mais é que ser macho, bom de cama, dar conta do recado sempre. Homem que chora é um saco. Homem que se preocupa com o futuro da humanidade não é bom de cama. Homem que é gentil, educado e cavalheiro enche logo, porque atrás disso vem uma série de "defeitos", como carência, fragilidade, introspecção. Homem sensível, se não for completamente, é sempre meio bicha.
Resumo: a maioria das moças do tal chat quer mais é barba mal feita raspando, macho para toda situação, cama e proteção. Assim, tipo "mata a cobra e mostra o pau"...
Engraçado que uma delas queria, sim, um homem sensível: para aturá-la nos dias de TPM. Outra também aceitava a sensibilidade masculina, mas para assistir à novela em vez do futebol. E uma terceira deixava, sim, o companheiro chorar. Longe, bem longe...
Umas poucas, justiça seja feita, identificaram em seus amigos e companheiros a tendência à sensibilidade como um lampejo de modernidade, um novo caminho a seguir na aproximação dos sexos. Menos mau, ainda que poucas.
Duas outras oportunidades de avaliar o que elas querem deles surgiram em conversas, separadas, com duas amigas.
Uma foi convidada, mas recusou, a participar de um debate sobre o homem sensível. Deixou claro, no entanto, que não dá mais para ficar aturando a defesa do machismo. E não esconde a generosidade a que se propõe no intercâmbio das vivências possíveis.
Outra, numa análise de personalidade, alinhou uma série de predicados masculinos, que dão bem a medida de que há um terreno em que se pode avançar junto, gêneros diversos que pretendem construir um mundo mais harmonioso. Para essa moça, há que se buscar o homem "bacana, nada formal, inteligente, engraçado, sensível,sensato, cool, nice, trash, beyond the words, esperto, honesto, malandro, inefável, insustentável, bonito, romântico, confiável".
Alguém mais se habilita a palpitar?
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Por falar em homem sensível, eis que reencontro, feliz da vida, um CD hoje raro de Raul Seixas. Um luxo, "O início, o fim e o meio", coletânea de clássicos do Rauzito na voz de gente muito fina, gravada no começo dos anos 90.
Caetano está demais numa interpretação absolutamente linda de "Ouro de Tolo". Vange Leonel arrasa em "Maluco Beleza" e o bom e velho Erasmo Carlos, sempre antenado, manda ver no hino anti-prisão conjugal "Medo da Chuva".
Só pra matar saudades, aí vai a letra de "Ouro de Tolo" --essa música, me diz Pedro Alexandre Sanches, aquele que sabe tudo de MPB, Raul fez "contra" Roberto Carlos e o "sistema" que ele representa.
E aí vai também a letra de "Medo da Chuva", essa para aqueles espíritos libertários que levam o mundo para a frente.
Ouro de Tolo
Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou o dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz porque
Consegui comprar um Corcel 73
Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa
Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isto uma grande piada
E um tanto quanto perigosa
Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado
Porque não foi fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?
E tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, eu não posso ficar aí parado
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao jardim zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah, mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco
É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo
Limitado, e que só usa dez por cento de sua
cabeça-animal
E você ainda acredita que é um doutor
Padre ou policial
E que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social
Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes, esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas
que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
Dum disco voador
Medo da Chuva
É pena que você pense que eu sou seu escravo
Dizendo que eu seu marido
Como as pedras imóveis na praia eu fico ao teu lado
Sem saber
Dos amores que a vida me trouxe e eu não pude viver
Eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar
Aprendi o segredo, segredo, o segredo da vida
Vendo as pedra que choram sozinhas no mesmo lugar
Eu não posso entender tanta gente aceitando a mentira
De que os sonhos desfazem aquilo que o padre falou
Porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo
Hoje eu sei
Que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
