Pensata

Luiz Caversan

01/05/2004

Homens sensíveis

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Por motivos diversos, o tema "homens sensíveis", de novo, passou pelo meu caminho, nada menos que três vezes esta semana.

Primeiro, por intermédio de um chat em que mulheres de diferentes idades, cidades, profissões e temperamentos discutiam o momentoso assunto, que está nas revistas, nos comerciais de TV e na mídia em geral.

Confesso que fiquei encantado com a experiência assim, digamos, antropológica.

Protegidas pelo anonimato, as moças soltaram o verbo. Como essa é uma coluna "família", não dá para reproduzir "ipsis literis", mas o teor da grande maioria das observações é o seguinte: homem tem mais é que ser macho, bom de cama, dar conta do recado sempre. Homem que chora é um saco. Homem que se preocupa com o futuro da humanidade não é bom de cama. Homem que é gentil, educado e cavalheiro enche logo, porque atrás disso vem uma série de "defeitos", como carência, fragilidade, introspecção. Homem sensível, se não for completamente, é sempre meio bicha.

Resumo: a maioria das moças do tal chat quer mais é barba mal feita raspando, macho para toda situação, cama e proteção. Assim, tipo "mata a cobra e mostra o pau"...

Engraçado que uma delas queria, sim, um homem sensível: para aturá-la nos dias de TPM. Outra também aceitava a sensibilidade masculina, mas para assistir à novela em vez do futebol. E uma terceira deixava, sim, o companheiro chorar. Longe, bem longe...

Umas poucas, justiça seja feita, identificaram em seus amigos e companheiros a tendência à sensibilidade como um lampejo de modernidade, um novo caminho a seguir na aproximação dos sexos. Menos mau, ainda que poucas.

Duas outras oportunidades de avaliar o que elas querem deles surgiram em conversas, separadas, com duas amigas.

Uma foi convidada, mas recusou, a participar de um debate sobre o homem sensível. Deixou claro, no entanto, que não dá mais para ficar aturando a defesa do machismo. E não esconde a generosidade a que se propõe no intercâmbio das vivências possíveis.

Outra, numa análise de personalidade, alinhou uma série de predicados masculinos, que dão bem a medida de que há um terreno em que se pode avançar junto, gêneros diversos que pretendem construir um mundo mais harmonioso. Para essa moça, há que se buscar o homem "bacana, nada formal, inteligente, engraçado, sensível,sensato, cool, nice, trash, beyond the words, esperto, honesto, malandro, inefável, insustentável, bonito, romântico, confiável".

Alguém mais se habilita a palpitar?

*

Por falar em homem sensível, eis que reencontro, feliz da vida, um CD hoje raro de Raul Seixas. Um luxo, "O início, o fim e o meio", coletânea de clássicos do Rauzito na voz de gente muito fina, gravada no começo dos anos 90.

Caetano está demais numa interpretação absolutamente linda de "Ouro de Tolo". Vange Leonel arrasa em "Maluco Beleza" e o bom e velho Erasmo Carlos, sempre antenado, manda ver no hino anti-prisão conjugal "Medo da Chuva".

Só pra matar saudades, aí vai a letra de "Ouro de Tolo" --essa música, me diz Pedro Alexandre Sanches, aquele que sabe tudo de MPB, Raul fez "contra" Roberto Carlos e o "sistema" que ele representa.

E aí vai também a letra de "Medo da Chuva", essa para aqueles espíritos libertários que levam o mundo para a frente.

Ouro de Tolo

Eu devia estar contente

Porque eu tenho um emprego

Sou o dito cidadão respeitável

E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Eu devia agradecer ao Senhor

Por ter tido sucesso na vida como artista

Eu devia estar feliz porque

Consegui comprar um Corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito

Por morar em Ipanema

Depois de ter passado fome por dois anos

Aqui na Cidade Maravilhosa

Eu devia estar sorrindo e orgulhoso

Por ter finalmente vencido na vida

Mas eu acho isto uma grande piada

E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente

Por ter conseguido tudo que eu quis

Mas confesso abestalhado

Que eu estou decepcionado

Porque não foi fácil conseguir

E agora eu me pergunto: E daí?

E tenho uma porção de coisas grandes

Pra conquistar, eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz pelo Senhor

Ter me concedido o domingo

Pra ir com a família ao jardim zoológico

Dar pipoca aos macacos

Ah, mas que sujeito chato sou eu

Que não acha nada engraçado

Macaco, praia, carro, jornal, tobogã

Eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho

Se sentir um grandessíssimo idiota

Saber que é humano, ridículo

Limitado, e que só usa dez por cento de sua

cabeça-animal

E você ainda acredita que é um doutor

Padre ou policial

E que está contribuindo com sua parte

Para o nosso belo quadro social

Eu é que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada

Cheia de dentes, esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas

que separam quintais

No cume calmo do meu olho que vê

Assenta a sombra sonora

Dum disco voador

Medo da Chuva

É pena que você pense que eu sou seu escravo

Dizendo que eu seu marido

Como as pedras imóveis na praia eu fico ao teu lado

Sem saber

Dos amores que a vida me trouxe e eu não pude viver

Eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva

Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar

Aprendi o segredo, segredo, o segredo da vida

Vendo as pedra que choram sozinhas no mesmo lugar

Eu não posso entender tanta gente aceitando a mentira

De que os sonhos desfazem aquilo que o padre falou

Porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo

Hoje eu sei

Que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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