Luiz Caversan
Já sei namorar
Você já sabe o que vai dar de presente para o seu bem? Uma Ferrari ou um diamante solitário de muitos milhões? Uma cobertura em Ipanema ou um cruzeiro magnífico pelos mares do sul. Um celular pré-pago de R$ 150 ou um CD de R$12? Um beijo, um abraço ou um aperto de mão?
Todo ano é a mesma coisa: dia dos namorados, você precisa, deve, é obrigado a dar alguma coisa para quem ama, senão quem você ama não vai te amar mais.
Não é bem assim, mas é assim mesmo: ai daquele que ousar não comprar nem que for uma "lembrancinha" para demonstrar o afeto que se encerra neste peito.
Ai de quem supor que amor, carinho, afeto, tesão, necessidade-do-outro são coisas que se demonstram demonstrando, sendo, sentindo.
Não há nada mais precioso que uma pessoa possa dar a outra do que a sinceridade mais profunda de um sentimento. Saber revelar isso é uma arte; receber, uma virtude que paradoxalmente exige uma generosidade muito grande. Para poder entender que o que se recebe é o mais íntimo, mais profundo e mais autêntico que há no outro quando de fato é, se faz necessário deixar de lado toda a natural, humana, ridícula e limitada necessidade que temos de moldar o sentimentos alheios às nossas carências mais egoístas.
É mais difícil receber amor do que dar, no fundo é isso que ocorre.
E já que a conversa hoje derivou para o campo filosófico-afetivo-namorístico, reproduzo em resumo o que disse que gostaria de ver escrito sobre o dias dos namorados uma leitora querida, um pensamento enviado por outra amiga e um texto muito oportuno, a respeito desse tema, que é equivocadamente atribuído a Mario Quintana, mas que na verdade é de autoria de Marta Medeiros.
Sandra sugeriu: "Fale sobre o medo que as pessoas que 'namoram' na internet têm de se conhecer. Fale da falta da necessidade do contato físico nas primeiras horas, semanas, meses. De como é visto um encontro, na visão masculina e na visão feminina. Sobre o perigo do 'ideal' entre os casais. Sobre o que é namorar, hoje. As dificuldades de classificar seu relacionamento: ficantes, amantes, de vez em quando, matriz, filiais... O que fazer quando a única saída é amar e continuar pagando micos, porque é assim que é bom? Sobre convivência, conivência e conveniência. Será que podemos viver em paz, sem o risco de ficar chatos e mau humorados porque não amamos?"
Sandra, minha querida, eu não preciso falar nada. Suas indagações são suficientes para suscitar todo tipo de reflexões, que necessariamente levarão a respostas adequadas ao espírito de cada um.
De Grace: "A vida pode unir perfeitamente os dois extremos: o amor e o ódio, a criação e a destruição. Assim como a guerra acelera o tempo e faz sobrevir a morte, o amor o detém e faz florescer a vida.'
É lindo, isso, essencial, poderoso.
Grace avisa que não sabe quem é o autor. Se alguém souber...
Agora, para os corações verdadeiramente apaixonados, solidários, amigos, leais, pacíficos (porque não existe amor verdadeiro que prescinda da cultura da não-violência), um texto que sugere mudanças no sermão dos padres durante os casamentos. Para a autora, o sermão deveria abolir a promessa de fidelidade "até que a morte os separe" e dizer o seguinte:
"Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?. Promete saber ser amiga (o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica? Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar? Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela? Promete se deixar conhecer? Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor? Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda? Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros? Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina? Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja? Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros."
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

