Luiz Caversan
Um homem elegante
O Rio de Janeiro é a cidade ideal para se sentir o Brasil. Aqui, onde estou agora, você ama e odeia este país, você se encanta e se decepciona, se alegra e se entristece; acredita no futuro, detesta o passado e se estranha com o presente, mas sobretudo tem a exata dimensão de nossa nacionalidade.
O Rio é profunda e superficialmente o Brasil.
Penso em tudo isso antes de falar de Chico Buarque de Holanda.
Ele está nas primeiras páginas de todos os jornais cariocas, nas revistas, nas rádios, na TV. Ele faz 60 anos e é devidamente incensado por todos. Devidamente no sentido verdadeiro, de que se deve fazer isso mesmo.
Afinal (estabelecendo a conexão com o intróito deste texto), não há artista mais brasileiro, cosmopolitamente brasileiro do que Chico Buarque de Holanda.
Seria ocioso dizer da importância de sua extensa militância social e cultural ao longo dos anos da ditadura militar; seria redundante relembrar a imensidão de seu talento ao reportar a alma feminina numa infinidade de canções; seria bobagem discutir os desvãos de seus dotes literários; seria perda de tempo tentar dizer o que todos sabem: de Chico Buarque de Holanda deve-se ter inveja. Além de tudo ele é o sessentão mais bonito desse país.
E como é elegante em sua discrição!
Num país em que se ostenta o que não se tem, ele faz fluir serenamente sua capacidade de falar o que todos precisam ouvir. Seria preciso muito esforço e dedicação para dar a devida dimensão ao artista e à obra, talvez a mais pertinente de nossa cultura popular urbana. Livros e teses e muito papel há que se gastar para isso.
Mas vamos fazer melhor: ouça qualquer coisa dele, leia qualquer coisa dele, lembre-se de um verso, um diálogo (de "Calabar", do Malandro da Ópera, do bicho da Fazenda Modelo, de Geni ou de Bárbara).
Faça isso agora e dedique esta lembrança ao cara. Como uma homenagem que todos nós precisamos prestar a ele, em agradecimento por nos ajudar há tanto tempo a entender um pouco mais esse país e essa vida.
Parabéns, Chico!
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
