Pensata

Luiz Caversan

26/06/2004

Mulheres perdidas

Faça o seguinte: você desce esta rua aqui, dobra a primeira à direita, sobe até o segundo farol, aí entra à direita novamente. Segue até o segundo cruzamento, então dobra à esquerda e vai em frente, até o final da rua. No final, você é obrigada a dobrar à esquerda, não tem erro. Daí é só ir até o primeiro farol e subir à direita. Pronto: a segunda travessa à direita será a rua Rio de Janeiro. Entendeu?

"Sim, entendi."

Cinco minutos depois, o telefone toca: "Olha, cruzei a Angélica e estou na Martim Francisco. E agora..."

Cruzou a Angélica?! Martim Francisco! Você fez tudo errado, E agora?

Agora a minha amiga, desorientada em Higienópolis, deixou mais uma vez clara e transparente uma verdade definitiva que os homens não conseguem aceitar, nem sequer imaginar a razão pela qual ela possa existir: por que as mulheres não têm senso de direção? Por que elas se perdem tanto?

Há exceções, claro, como em toda boa regra. Mas o "normal" é isso mesmo: em vez de dobrar à direita elas entram à esquerda, no lugar de subir, descem, quando devem seguir adiante, retornam. Perdem-se como se todos os caminhos fossem exatamente aqueles que não devem ser seguidos.

E o mais engraçado é que você será sempre o culpado. Tipo: "Você não disse que era tão perto, eu pensei que tinha que ir mais um pouquinho". Ou: "Ah, tava tudo congestionado, eu só desviei para ir mais rápido".

Claro, elas acabam sempre optando por uma solução alternativa, que necessariamente levará ao caos.

Esse senso pouco prático das mulheres é um contra-senso total, porque as moças em geral são tão objetivas, têm sempre em mente aquilo que querem (e principalmente o que não querem), miram, disparam e costumeiramente acertam.

Por que, quando estão no bendito volante de um carro, isso não acontece?

Há casos extremos, como o de outra amiga, que está indo numa direção, pára para olhar uma vitrine e, quando retoma o caminho, volta por onde veio, fazendo comentários do tipo: "Puxa, as lojas estão cada vez mais parecidas...".

São extremamente raras, mas, deve-se admitir: há as mulheres que transitam com eficiência ou eficácia. Dobram, retornam, vão e vêm com uma agilidade e uma destreza invejáveis, verdadeiras Sennas das alamedas e avenidas.

O que prevalece, no entanto, é a nossa incapacidade de nos fazermos entender para que elas consigam, com a nossa ajuda, chegar aonde devem.

Talvez esteja justamente aí o X da questão: elas simplesmente se recusam a seguir o que determinamos!

É como que uma rebeldia de gênero, uma declaração de independência em relação ao macho hegemômico?

"Não chego onde devo, mas não faço o que ele manda!"

Afinal, a história está aí para comprovar que a conta que cobramos depois por esse tipo de gentileza é, em geral, muito alto para elas. Elas pagam o preço da dependência e da submissão há séculos...

Ora, então que sigam o caminho que for, que cheguem tarde, que andem muito, mas que o façam na direção de se livrarem de nossas formatações aprisionantes e definitivas, que sempre garantiram a soberania masculina.

Errem, mas sejam independentes e felizes.

Qualquer coisa, pára e pergunta...

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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