Pensata

Luiz Caversan

07/08/2004

A arte de andar para a frente

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Raiva, frustração, rancor, desilusão, insegurança, decepção, ansiedade que nada mais é que o medo do futuro.

Esses sentimentos normalmente afloram diante de grandes percalços da vida, aqueles que podem interromper sonhos, cambiar necessidades, promover ajustes para os quais muitas vezes não estamos preparados, sequer esperamos ou que tentamos evitar. Como se fosse possível deter os desígnios do que necessariamente deve acontecer...

Diante do inesperado e do desconhecido, a tendência mais natural do ser humano é permitir que o lado mau, negro, revoltado e inconformado sobressaia, domine, amargue a existência.

Grande felicidade, no entanto, é conseguir perceber que a adversidade muitas vezes (ouso afirmar que na maioria das vezes) pode perfeitamente se converter no maior, no principal aliado para as grandes mudanças que fazem da vida o que ela essencialmente é: uma aventura única, magnífica, desafiadora, instigante e, sempre, no fundo, recompensadora.

Depois de duas décadas, decisões empresariais e divergências irreconciliáveis fazem com que mude de rumo na minha vida profissional. Daqui para a frente, permaneço ligado ao grupo Folha apenas por intermédio desta coluna semanal; apesar do meu desligamento, recebi o convite para permanecer neste espaço de sábado, com minhas crônicas e comentários, o que aceitei com prazer, em nome de uma convivência saudável com leitores que já dura quase quatro anos.

Permaneço num espaço, aliás, muito apropriado para esse tipo de reflexão, a proporcionada pelas mudanças que têm sua gênese numa ruptura nem sempre agradável. Mas que podem perfeitamente se converter no início de um novo caminhar, desde que aqueles sentimentos todos que relacionei no começo do texto fiquem devidamente contidos nos limites de sua insignificância.

Porque simplesmente somos maiores que a raiva que uma desilusão pode causar, temos mais magnitude do que o rancor que pode teimar em atazanar os nossos sentimentos nobres; somos mais, muito mais importantes (para nós mesmos, para nossos queridos e para aqueles com quem dialogamos) do que a insegurança de uma eventual ruptura pode tentar impor.

Dessa forma, aproveito essa retomada de férias e o reencontro com os leitores para festejar o recomeço, ou quem sabe o começo mesmo de novas e boas perspectivas. No melhor sentido, naquele que permite que a troca de idéias e informações proporcionem o crescimento da alma e do caráter, para que tenhamos a possibilidade de fazer jus à beleza dessa existência e, quem sabe ainda, no lucro, conseguir exercitar o que propugnou Gandi: sejamos nós mesmos a revolução que queremos para o mundo!

*

Exatamente um ano atrás, aqui, escrevi um artigo festejando a chegada ao mundo de um menininho lindo, o Antonio. Neste dia dos pais, ele faz um ano. E fico muito feliz de, passado esse tempo e tendo se tornado aquele bebezinho minúsculo e frágil num rapazinho charmoso e simpático, poder repetir o que disse então:

"Confesso que a fragilidade daquele garotinho, tão angelical nos seus lençóis assépticos, me inquietou um pouco. Nós temos o deplorável vício de, em geral, ver o mundo por intermédio de nossas possibilidades mais restritas, e estas necessariamente incluem os medos e as frustrações.
Daí minha preocupação paternal com o futuro do Antonio.
O que será de suas lutas, quais curvas aparecerão em seus caminhos, onde surgirão os obstáculos nesse mundo de tantas e tão variadas agruras?
Puro instinto paternal, como eu disse, uma vez que o horizonte que se abre para o Antonio é, na verdade, magnífico.

(...)

Ele, assim como as gerações que o sucederão, tem a chance inédita de consertar e melhorar tudo o que fizemos de errado até agora.
Que leve, na sua trajetória, a nossa esperança de um mundo melhor."

Taí minha homenagem aos pais e aos filhos que um dia também serão pais.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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