Luiz Caversan
Gente de quinta ou sexta
Não, não foram todos criados à imagem e semelhança Dele.
Todos nascemos pelados e viramos pó quando a morte vem, mas entre um evento e outro, ah, muita água passa debaixo da ponte dessa vida besta. Quer dizer, besta mais ou menos para poucos; muito, mas muito besta mesmo para a maioria.
Mas é uma minoria bem minoria que expressa, simboliza e "usufrui" o que a vida tem de pior. São aqueles que não possuem nada. Nada a perder, nada a ganhar, nada para fazer, nada para comprar, vender, comer, vestir.
São aqueles cidadãos de quinta ou sexta categoria, que vegetam nas esquinas, sob as marquises, embaixo de viadutos. Fétidos, feios, sujos, podres.
O que há de mais degradante, o ponto extremo a que pode chegar o ser humano. Mas que, infelizmente, nunca deixa de ser humano.
Digo infelizmente porque é justamente a condição humana dessa gente que choca mais os intolerantes.
Dá nojo, raiva, asco, repulsa. Daí a querer eliminar esses andrajosos do caminho é um passo.
Tudo indica que foi isso que aconteceu numa madrugada dessas em São Paulo, quando uma dezena de mendigos foi espancada, trucidada, quatro deles levados à morte, outros tantos marcados para sempre.
Serviço de utilidade pública, higienização sanitária, um favor para esses pobres coitados, antecipar o fim de um sofrimento aparentemente sem fim, esse o raciocínio perfeitamente possível que certamente passou pela cabeça de quem participou da chacina.
Como a sociedade permite que esse tipo de ultraje surja em seu seio, vamos acabar com o mal pela raiz.
Como não somos capazes de compreender que alguém possa perder tudo, inclusive a própria dignidade, tratemo-lo como tal: sub-gente a ser exterminada da paisagem urbana.
Já tacamos fogo em índio, chacinamos moleques de rua, metralhamos sem-terra, que mal há em acabar com meia dúzia de podrões de uma cidade tão farta deles?
Ato covarde, vergonhoso, indigno, criminoso, cruel, selvagem?
Nada disso.
Trata-se apenas de uma demonstração inquestionável da "evolução" da minha, da sua, da nossa espécie...
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
