Pensata

Luiz Caversan

28/08/2004

Bons velhinhos

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Uma das passagens mais tocantes do livro "Quase Memória", fenomenal obra de Carlos Heitor Cony, é aquela em que o personagem-narrador percebe que está mais velho do que o pai no retrato que mantém deste em sua casa.

O trecho do livro, todo ele maravilhoso e que ainda teve o predicado de devolver Cony ao seu devido lugar, ou seja, ao rol dos escritores mais importantes do país, é emocionante e permanece gravado na minha lembrança desde então.

Pois bem, esta semana aquela situação --o filho mais envelhecido que o pai e que em breve vai ficar parecendo o pai do pai-- praticamente me atropelou.

Pela primeira vez me dei conta de que estou mais velho do que meu pai em um retrato antigo que tenho dele numa estante.

Sabe aqueles retratos retocados com tinta colorida e que remetem a um desenho hiper-realista?

Pois é, ali o velho nem velho estava, tinha algo em torno dos 35 anos.

Já passei dos 35 faz tempo, na verdade esta semana ingressei no rápido caminho de doze meses que leva aos 50. Mas só agora percebi que estou a ponto de "virar" pai do pai.

Observando a cara do velho, no entanto, cheguei a algumas conclusões que podem compensar, pelo menos em parte, o avançar da idade, no caso a minha.

Ali, seu Hermínio Caversan, que nos deixou há quase uma década, está como sempre foi: sério, compenetrado, com uma cara de italiano bravo que o tornava mais senhoril do que na verdade ele era.

Antigamente, ou duas ou três décadas atrás, as coisas funcionavam assim mesmo: depois dos 35/40, todo mundo era senhor, senhora, velho enfim.

Claro, por conta das limitações da medicina, da incipiente qualidade de vida e de outras vicissitudes do cotidiano de então, as pessoas duravam menos. Morria-se cedo, ficava-se velho cedo, seria esta a lógica.
Ainda bem que isso mudou, pelo menos para uma parte de nós.

Hoje em dia ainda me assusto, na verdade me incomoda, ser chamado de senhor.

Em relação às mulheres, então, temos que tomar muito cuidado na hora do tratamento, porque em geral "senhora" é uma ofensa inominável para certas garotas de 40, 45 anos --muitas delas delas bonitas e muito bem cuidadas.

Claro que isso não ocorre com todos, infelizmente, porque o povão desprovido continua ostentando muito cedo no rosto e no corpo os destratos que a vida lhe impinge.

Mas, cá entre nós, talvez seja muito mais gratificante ter 50 anos hoje do que 35 no tempo dos meus pais ou avós.

Quer dizer, tudo vai depender de um detalhe pequeno mas extremamente importante: a idade da alma, do espírito, a disposição que se tem em relação à existência.

Quando a alma envelhece, aí não tem jeito e não há nada que faça a vida valer a pena.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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