Pensata

Luiz Caversan

04/09/2004

A tia e o Sete de Setembro

Publicidade

Sete de Setembro --assim mesmo, com maiúsculas-- era o máximo. Primeiro porque não tinha aula. Depois por causa da fanfarra da escola. E o melhor mesmo era o desfile: tudo enfeitado de verde-amarelo, cantar o Hino Nacional com força e vontade.

Vontade de ser um herói da pátria, um Dom Pedro, um Tiradentes, Duque de Caxias não, mas quem sabe um novo Martins, Miragaia, Drauzio ou Camargo?

Havia uns "heróis" surgidos recentemente que a gente não gostava de gostar.

Todos com caras de bravos, alguns fardados, mas sempre com o semblante de quem estava fazendo alguma coisa muito séria: Castelo Branco, Costa e Silva (e seus apavorantes óculos escuros), Garrastazu Médici, que a gente chamava de "garrafazul"...

Não entendia direito qual era a deles, só ouvia falar na tal revolução e nos terroristas que eles espantaram.

Ato Institucional, Lei de Segurança Nacional.

Realmente não entendia direito.

Um dia entendi.

Minha tia era uma mulher de muitas palavras, porém um dia ficou quieta. Muda.

Parou de falar, de comer, queria parar de viver. Cochichava-se pelos cantos, irmãs e primos mais velhos. Pai e mãe preocupados. Seu Antonio foi preso, dona Alfonsina também. E o Julio Prata, desapareceu?
Eram todos amigos da minha tia, da mesma "turma", ou seja, do mesmo partido.

Todos foram presos pelos soldados comandados por aqueles "heróis" de cara brava.

Menos minha tia. Ela ficou esperando ser levada, mas não foi.

De qualquer maneira, eles, os homens da ditadura (isso eu entendi muito depois), aqueles homens que comandavam os sete setembro (já com minúsculas) de que havia gostado tanto, não prenderam minha tia, mas levaram sua razão.

Minha tia, Maria Esperança Ribeiro, dona Maria, conhecida na zona norte e na zona leste de São Paulo, militante feminista, comunista, ativista, estilista, mãe de meus dois mais queridos primos-irmãos, perdeu a razão, a fome, a vontade de viver.

Ficou com medo, muito medo e definhou até que um dia nos a enterramos magrinha, pequena como sempre foi, mas sem a luz que brilhava nos seus olhos irrequietos e muitas vezes incômodos.

Eu amava minha tia.

E nunca mais gostei do sete de setembro.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca