Pensata

Luiz Caversan

23/10/2004

Por uma sociedade mais pacífica

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Na manhã de sexta-feira, naquele pedaço nobre de São Paulo, na avenida famosa, perto do shopping mais chique da cidade, três centenas de homens e mulheres deixaram negócios, notícias, corporações e gestões momentaneamente de lado para falar de paz.

Era uma modesta mas emblemática passeata, que saiu da avenida Faria Lima em direção à praça Morungaba, cantinho simpático do coração dos jardins, para lembrar que um colega jornalista, sócio de uma das boas empresas que prestam assessoria de comunicação no país, marido e pai de família, estava desaparecido havia exatos 365 dias.

Não houve discursos inflamados, nem indignações raivosas, mas sim a firme e pontual manifestação de inconformismo com uma situação absurda --Ivandel Godinho, 55 anos, foi sequestrado ali mesmo na Faria Lima, nunca mais apareceu e sobre ele a polícia nunca obteve nenhuma informação, nem sobre ele nem sobre os criminosos.

Não se sabe, portanto, se está morto, se ainda permanece em cativeiro, se perdeu a memória e vaga sem rumo em algum canto do Brasil. A família, numa demonstrção inequívoca de força e união, mantém-se irredutível na cobrança às autoridades. E numa comovente demonstração de fé e esperança, aguarda sua volta para casa.

Conheci Ivandel Godinho logo nos primeiros tempos em que fui trabalhar no Rio de Janeiro, em 1991. Ele e a mulher Kiki formavam a mais simpática e eficiente dupla de ação para intermediar jornalistas e produtores culturais, o que nos aproximou muito.

Sempre foi um homem cordial, do bem. E sumiu em meio à onda de violência que ameaça a todos nós...

Daí a importância de todos aqueles jornalistas, executivos, secretárias, produtores, publicitários, enfim, gente ligada a esse meio deixar seus afazeres para caminhar até a pracinha, cantar a música "A Paz", de Gilberto Gil e elevar seus corações no sentido de esperar que se consiga mudar alguma coisa com a força da vontade das pessoas de bem.

Um dos momentos mais comoventes da curta mas significativa homenagem a Ivandel foi a leitura de uma mesangem pelo seu filho, Hugo.
Em nome da amizade de Ivandel, em homenagem à força exemplar da Kiki e ainda para tentar, de alguma forma, ajudar a solucionar esse caso e, sobretudo, em nome da paz, reproduzo a carta do rapaz.

*

Um ano de sofrimento, de grandes expectativas, frustrações e de muita...muita saudade. Um ano de fortalecimento da fé. De espera, e quanta espera... Costumamos dizer aos mais próximos que a vida está em suspenso desde outubro do ano passado. 365 dias de duração do seqüestro do meu pai, Ivandel Godinho Júnior. 365 dias, ainda sem resposta.

A paz é hoje o nosso símbolo aqui. A serenidade que precisamos ter durante todo o tempo para encarar esta dura realidade é a representação concreta da paz. Paz de espírito para podermos estar neste movimento hoje, firmes, dividindo com todos que nos ouvem um pouco do absurdo que estamos vivendo. Quando o desânimo procurou nos visitar, com todo o peso do tempo que já passou, procuramos enxergar além da situação que nos cerca. Enxergamos, ainda que de longe, a PAZ.

A paz não é fácil de ser alcançada, e nós sabemos bem disso. Em muitas horas, a revolta surge. Revolta diante da total falta de respostas da polícia sobre o paradeiro do meu pai. Revolta diante da covardia extrema dos criminosos que nos telefonavam com ameaças, nos privando da vida com nosso pai por um bocado de dinheiro. Revolta também diante do descaso das autoridades.

Com tantos obstáculos, a paz por muitas vezes se sentiu ameaçada. Mas felizmente sempre era resguardada. A revolta deu lugar à ação. Ações para se alcançar a paz. No nosso caso, divulgando sempre que possível o seqüestro e buscando respostas por meios alternativos. No caso da ação pela paz de todos, pedindo ações concretas para atingirmos uma sociedade mais bonita para as gerações futuras. Uma sociedade mais pacífica.

A paz não pode ser apenas um conceito subjetivo. A paz da qual falamos é real, e pode ser buscada por diversos caminhos. Selecionamos 12 caminhos. Eles representam o número de meses que já dura o seqüestro. São pedidos simples, e que provavelmente todos aqui conhecem. Mas que não estão sendo usados. Se estivessem, certamente meu pai poderia estar junto a nós neste momento. Portanto, pedimos:

1- Sociedade mais justa
2- Fim da violência
3- Não às armas
4- Educação para todos
5- Segurança
6- Justiça ágil
7- Amor
8- Polícia qualificada
9- Respeito ao próximo
10- Liberdade de ir e vir
11- Justiça social
12- Paz

Paz que atinja a nós todos.
Nós precisamos de paz.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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