Luiz Caversan
A depressão que não temos
Andei muito triste nos últimos tempos. Aflito, ruminante, ansioso, insone.
Eis que a sinistra senhora (como um amigo querido gosta de definir a depressão) volta a me atazanar a vida, concluí logo.
Trabalho indo maravilhosamente bem, saúde excelente, família razoavelmente em ordem, filha feliz, mais uma vez a pergunta: por que a melancolia? O que se passa?
Poderia recorrer a uma explicação fácil com a ajuda daquela musiquinha brega: "É o amoooooooor!"
Ai, que falta de originalidade, não?
Sim, o amor, no caso, complicou bastante, mas como bom virginiano, gosto de buscar pêlo em ovo, então parti dessa constatação básica (a tristeza-melancolia-depressão tendo como gatilho o amor não plenamente realizado) para sofisticar um pouco as coisas. E com a ajuda de uma excelente discípula de doutor Freud, fui em frente.
E recordei que a "impossibilidade de amar" é uma das definições mais completas da depressão enquanto doença moderna. Foi formulada com maestria pelo jornalista Andrew Solomon em seu fundamental "O Demônio do Meio dia - Uma Anatomia da Depressão".
Ok, estou deprimido portanto não amo a mim e por isso não conseguirei amar mais ninguém, certo?
Mais ou menos, pelo menos desta vez.
Agora, foi possível formular uma outra alternativa: a depressão, esta sim, seria uma resposta meio que instintiva, uma justificativa simplista para vicissitudes mais complexas da vida (incluindo aí o amor), para a necessidade atávica que periodicamente ataca (pelo menos a mim) de ter tudo sob controle, as emoções a termo e as pessoas sob domínio, por melhores que sejam nossas intenções.
Menos que deprimidos, talvez estejamos muitas vezes incapacitados, impossibilitados de amar não a nós mesmos, não alguém, mas sim a nossa condição extremamente frágil, nossas limitações, nossa pequenez diante da (eis Freud de novo) imensidão oceânica da existência, que nos afoga e oprime.
Quando as portas se nos apresentam aparentemente todas trancadas, eis que nos entregamos a uma espécie de masoquismo que nos redime, e numa atitude aparentemente muito mais prática do que enfrentar as barras com coragem ou simplesmente ter um pouco mais de paciência, formulamos a frase que nos justifica perante nosso inconformismo: estou deprimido...
Será?
*
Bem, para terminar deixo aqui quatro citações poéticas apropriadas para:
"Somos vítimas de um destino: nascemos para perseguir a borboleta de asas de fogo. Se não a pegamos, seremos infelizes e se a pegamos, lá se nos queimam as mãos"
Monteiro Lobato
"Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor" Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
"Tristeza não tem fim, felicidade, sim"
Tom Jobim e Vinicius de Moraes
"Bom Dia, Tristeza"
(canção de Vinícius de Moraes e Adoniran Barbosa)
Bom dia tristeza
Que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando até meio triste
De estar tanto tempo longe de você
Se chegue tristeza
Se sente comigo
Aqui nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
