Luiz Caversan
Duas cenas e uma culpa
Cena um noite de sexta-feira, o carro pára no sinal fechado e eles chegam rapidinho, num pequeno bando.
São pirralhos, têm que ficar na ponta dos pés para poderem se fazer ver, exibir seus olhos a um só tempo melequentos, espertos, mas desamparados.
Mal dá para ouvir o que dizem: tia me tem um trocado pra me ajudar?
São um nadinha, um deles ainda de chupeta na boca.
Movem-se seminus, quase-pretos, quase gente.
Quando o farol abre e o trânsito segue, nota-se um outro, indiferente aos demais que abordam os motoristas e passageiros no cruzamento da avenida Brasil (êta Brasil...).
Este, que não está nem aí, este sim é bem pretinho, camiseta branca.
Não está nem aí porque se concentra numa espécie de contorcionismo, uma dança estranha e engraçada, como se estivesse ouvindo uma canção que o exime da miséria e da fome e da ausência de qualquer coisa que possa significar felicidade.
Mas parece alegre em sua fantasia, num contraste surreal com os seus parceiros de infortúnio.
De onde ele tira a aparente felicidade, onde vai buscar inspiração para aquela coreografia, o seu "Balé do Futuro Incerto"?
O carro de trás buzina e é preciso ir em frente...
Cena dois manhã de sábado, ao tirar a chave do carro do bolso, uma nota de cinco reais cai no chão e sai rolando por causa do vento fresco.
Tento alcançá-la, mas o trânsito não deixa.
Ela passa por entre os carros e vai rolando em direção ao outro lado da rua próxima ao aeroporto.
Sentado na sarjeta, um homem observa a cena e percebe o movimento do dinheiro.
Não sei como consegue enxergar, porque seus olhos estão semicerrados por conta do inchaço causado pela bebida. É um desses seres de idade, cor e raças indefinidos pela ação do alcoolismo crônico.
Mas ainda guarda um restinho de reflexo, o suficiente para perceber que o dinheiro rola em sua direção.
Quando percebe que isso está acontecendo, sorri. Na verdade é meio um esgar, mas a satisfação pode ser notada no seu rosto.
E ele começa a "chamar" a nota de cinco reais com as mãos, rindo e balbuciando algo.
E a nota vai rolando, vai indo, vai indo e chega a meio metro do homem, que já então tenta levantar para alcançá-la.
Meio que paralisado, interrompo meu movimento de resgate do dinheiro e deixo que ele siga o caminho que o vento traçou.
Mas o homem, cai-não-cai, fica indeciso e me olha como que pedindo autorização para ir em frente e capturar aquela "fortuna".
Finalmente ele pega o dinheiro e estende a mão em minha direção. Sem saber o que fazer, mas ciente de que o dinheiro não era mais meu, só consigo dar um conselho besta: "Vê se come alguma coisa, não vai gastar tudo com pinga..."
Ele agradece dizendo algo que eu não entendo, sem saber que, na verdade, eu não estava entendendo nada.
O pretinho da dança esquisita, o "bebum" da nota de cinco reais.
Duas cenas da cidade grande que fazem o coração doer e pensar que, é verdade, não estamos entendendo nada do que está acontecendo.
Ou, no mínimo, estamos deixando de fazer alguma coisa muito, muito importante.
![]() |
Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

