Luiz Caversan
Filhos, esse doce mistério
Minha filha tem 19 anos. Fez 19 anos a milhares de quilômetros de distância de mim. Mora e estuda no Canadá. Está para chegar e fico pensando quem é a moça que vou encontrar no aeroporto daqui a uns dias.
Claro, será ela, falamos todos os dias, conversamos muito, acompanho seus estudos, trabalhos e problemas do cotidiano.
Mas sei, no fundo coração, sei que haverá surpresas. E isso é muito bom.
Bom porque certamente irei aprender muito com ela, terei a oportunidade de constatar seu crescimento pessoal, como evoluíram suas indagações, para que caminho seguiu algumas, digamos, diretrizes que para ela tentei passar ao longo de sua infância e adolescência. Enfim, terei a oportunidade de aferir o grau de evolução da minha família.
Não somos mais uma família no sentido tradicional. E isso também tem suas qualidades. Vivo cá "single" pelo menos por enquanto, a mãe dela constituiu há tempos outra relação, ela anda por aquelas terras geladas do norte, mas somos todos amigos queridos, nos apoiamos e, de certo modo, sempre seremos uma família, no sentido mais generoso que possa haver para o termo. Pelo menos essa é a intenção.
Daí a importância do reencontro, do aprendizado que quero tirar. Saber em que posso evoluir a partir do crescimento desse conceito que tanto nos assusta, que é o da suposta desagregação familiar, das atitudes exigidas pela distância, do que cada um recolhe em sua jornada particular.
Trata-se, claro, de um paradoxo, porque estou muito mais próximo de minha filha do que muitos pais que convivem com os seus diária e cotidianamente. E têm completos desconhecidos ao seu lado. Pior, muitas vezes os próprios pais são verdadeiras incógnitas, em vez de referências positivas ou mesmo negativas, para seus filhos.
Baita desafio, essa aproximação, seja na vida do dia-a-dia ou à distância.
Uma vez escrevi o seguinte:
"É impressionante a capacidade que eles (nossos filhos) têm de nos surpreender, de nos instigar, provocar nossos fantasmas, nossos medos e ao mesmo tempo de se converter em fonte de prazer e realização.
Suas contradições, expectativas, ansiedades, todas as suas perguntas... Como respondê-las, como não sofrer quando elas, as perguntas, não nos são feitas?
(...)
Como protegê-los, se as certezas estão cada vez mais diluídas na fragmentação dos conceitos e dos costumes? Como instruí-los, se as verdades estão permeadas de todas as fragilidades que séculos de hipocrisia humana nos impuseram? Como dizer acerte, não erre, se muitas vezes descobrimos que o certo de prática antiga se tornou o erro de que nos envergonhamos?
Eles saberão escolher? Nós soubemos?"
Lembro disso agora, porque, muito mais que dar respostas à minha filha que está para chegar, eu aqui com 30 anos de vida mais que ela, tenho na verdade muitas, muitas perguntas a fazer.
Quero mais é aprender o que puder, e isso é o que muitos pais deveriam fazer com seus filhos, acredito.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

