Luiz Caversan
Negros de lá e de cá
Estamos no cume do Corcovado, aos pés do Cristo Redentor. O sorriso do negro americano reflete todo o seu encantamento. Ele já sentira, no caminho lá para o alto, toda a energia da floresta, da mata atlântica que recobre boa parte da paisagem carioca. "Wonderful!"
Seu deslumbramento com o que assiste é comovente, nos contagia a todos, brasileiros brancos e negros que o acompanham em seu passeio por esta cidade partida.
Digo a ele que a geografia do Rio é o próprio Brasil: de um lado do maciço da Tijuca, em que ficam o Cristo e a floresta, está a cidade "boa", a zona sul linda com suas praias, a lagoa deslumbrante, gente linda bronzeada, todo o recorte das montanhas, com o mar verde/azul e suas ilhas servindo de horizonte.
Do outro lado, a cidade "má", quase infernal, com a profusão de morros e favelas e pobres e "quase todos pretos" e tiroteios e chacinas e confrontos que nunca cessam, e permanecem na capas dos jornais.
Sábado, 27, a manchete nos informa que há uma guerra.
Onde? Indagamos onde está a guerra se toda a paisagem é de paz e harmonia?
Não é tão difícil assim explicar ao negro americano que por trás daquela placidez toda está a miséria fomentada pela triste e cruel desigualdade social. Que por sinal começa lá mesmo em seu lar, capital dos capitais.
O duro é nós mesmos não nos convencermos disso, nós mesmos brasileiros, que dirá os cariocas, que nem sequer conseguem explicar o que sucede à sua volta, aquela violência imobilizante.
O que fazer? Para onde ir? Qual o grito que deve ser gritado?
Mesmo assim a cidade e seus habitantes tentam, de qualquer maneira irem em frente, insistem, mobilizam-se, se unem ainda que em desamparo.
E naquela mesma noite de sábado assistimos a um espetáculo maravilhoso de cidadania e amor ao Rio.
Foi na inauguração da gigantesca árvore de Natal na lagoa Rodrigo de Freitas, milhares de pessoas em harmonia, festival de fogos de artifício como que a demandar luz para aquele povo, a orquestra sinfônica e seu coral insistindo que, sim, aquela é a cidade maravilhosa cheia de encantos mil, a cor mais reluzente da aquarela do Brasil.
Mas àquela altura nosso amigo negro americano já estava voando de volta para casa, talvez pensando que somos uns desafortunados que não conseguimos desfrutar, ao contrário parece que insistimos em detonar, aquela beleza toda que Deus nos deu.
Será de Deus ou nossa, mesmo, a culpa?
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

