Pensata

Luiz Caversan

04/12/2004

Os nós de todos nós

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Olha só que nome sugestivo: "Desatando nós familiares". Trata-se de um workshop realizado recentemente e que segundo uma amiga tinha o objetivo de orientar, discutir, prospectar, enfim, desatar pendências, problemas de relacionamentos, conflitos, ou seja, nós que interferem no dia-a-dia em família.

Dada a quantidade de nós que trago no meu histórico familiar, imagino que tal seminário teria sido de grande utilidade.

Na verdade tenho problemas com nós desde sempre.

Quando era pequeno, ficava brincando aos pés da máquina de costura de minha mãe, que, para ajudar no sustento familiar, trabalhava na sala de casa para uma pequena indústria de roupas. Minha diversão eram os carretéis, bobinas, linhas, agulhas, colchetes etc. Virava e mexia, lá estava eu enredado numa profusão de fios coloridos, que serviriam para o trabalho da mãe. Serviriam se eu não tivesse embaraçado (ou embramado, como se dizia) tudo aquilo. E ficava horas tentando resolver a confusão, e quanto mais mexia nas linhas, mais a coisa se complicava. Puxava dali, estivava daqui, quase conseguia, mas sempre sobrava um nó impossível de ser desatado.

Com um pouco mais de idade, isso voltaria a acontecer quando estava empinando papagaio, e a linha que levava o brinquedo aos ares se enroscava nos capins e galhos do terreno baldio vizinho de casa na então distante zona leste.

E a confusão se restabelecia.

E novamente lá estava eu, irritado e ansioso, em meio a fios entrelaçados, tentando pôr as coisas em ordem.

Em geral, quase conseguia dar conta do desafio, porém nunca tinha a habilidade suficiente para chegar até o fim do serviço: sempre e sempre sobrava um nozinho matreiro. A solução era, então, arrebentar a linha, jogar fora o bolinho inextrincável, atar as duas pontas que sobraram e levar novamente o papagaio para os ares.

O nó na linha permanecia ali, como que uma pequena cicatriz a atestar minha incompetência, a denunciar minha incapacidade de resolver um dilema recorrente, embora o brinquedo voltasse a funcionar satisfatoriamente.

Tudo isso pode servir perfeitamente de metáfora para a vida atual. De repente os caminhos se entrelaçam, carências se estabelecem, discórdias se avolumam e gente fica ali, sofrendo, para desembaraçar a existência.

Com paciência e perseverança, há de se conseguir, certo?

Mas chega um determinado momento em que se deve admitir a impossibilidade de resolver tudo como se deseja. Há, sim, nós que não se desatam nunca. A solução, neste momento, parece ser a do menino com o papagaio: deixa-se de lado a confusão que não se é capaz de resolver, atam-se as pontas disponíveis e vai-se em frente.

Ficarão sempre nozinhos/cicatrizes, permanecerá uma certa sensação de incapacidade?

Paciência.

O importante, o fundamental é não desistir, porque, afinal, temos que aproveitar o vento, sobretudo quando ele está soprando a favor.

E continuar a brincadeira...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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