Pensata

Luiz Caversan

11/12/2004

Bimbalham os sinos

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Adoro odiar o Natal. Não o Natal em si, a data, mas tudo o que gira em torno de fim de ano: excesso de compras, excesso de trânsito na cidade, excesso de "caridade", excesso de coisas que se tem de fazer para "entrar no clima"; excessos, enfim.

De certa maneira, adoro odiar, isso faz parte de uma espécie de comportamento padrão. Mas, quando me dou conta, já estou às voltas com listinhas, festinhas, aproximações.

Taí o xis da questão: aproximações.

Com certeza não existe nenhuma outra situação da vida contemporânea que nos force a ter mais contato com mais pessoas por mais tempo do que as festividades de fim de ano. Temos de nos aproximar, "participar", caso contrário seremos discriminados, tratados como seres estranhos. Como se não fôssemos permanentemente agentes do eterno estranhamento.

Para muitas pessoas --entre as quais me incluo de alguma maneira--, essa necessidade de relacionamento afetivo-festivo a todo custo incomoda.

Talvez porque, lá no fundo, não seja possível, por mais gente que haja à nossa volta, livrarmo-nos daquela solidão atávica que acompanha todo ser humano do começo ao fim, do útero ao caixão, passando por todas as idades e suas respectivas crises.

E talvez seja por isso mesmo que devamos lutar contra a força que tenta nos expelir do convívio coletivo ainda que muitas vezes hipócrita, em nome de uma sobrevivência minimamente satisfatória.

Psicologismo demais não combina com espírito natalino, eu sei.

Então vamos nessa: amigo secreto, presente debaixo da árvore, pisca-pisca na janela do apartamento, presentinho para filho, pai, avó, peru com champanhe, panetone com guaraná.

Afinal, é preciso festejar, ainda que tudo tenha começado, e a gente quase nunca se lembra disso, com um cara genial pregado numa cruz de madeira.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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