Luiz Caversan
Família
Anuncia-se que o governo federal vai desencadear uma campanha para exaltar os valores familiares, a exemplo do que fez com a auto-estima dos patrícios com a série que garante que "o brasileiro não desiste nunca".
Nada contra que se defenda esse tipo de atitude, muito ao contrário, embora se possa questionar se isso é mesmo uma ação de governo necessária.
Mas o ponto não é esse, a meu ver, mas sim o foco da nova iniciativa.
Que tipo de valores vai-se ressaltar?
Acredito firmemente, e por experiência própria, que o conceito de família está em permanente mutação.
O formato convencional, com a tradicional pirâmide em que os descendentes se alinham de cima para baixo a partir dos patriarcas e matriarcas, transmuta-se, renova-se.
As relações modernas exigem novas e desafiadoras posturas e conceituações.
O que antes se temia como "desestruturação do núcleo familiar", com a liberdade que cada um de seus membros passou a usufruir na busca de seus destinos individuais, levou a essa perspectiva contemporânea.
Onde predominava a necessidade de se adotar padrões rígidos de conduta e obediência, frutificaram diversos tipos de relacionamentos, em que carinho, solidariedade, confiança e respeito deixam de ser obrigação.
Não se pode impor nada disso à força, o carinho obrigatório, a solidariedade por determinação genética.
Quando se exige isso, a hipocrisia tende a florescer fartamente.
Cada relacionamento que se transmuta em outros formatos leva consigo suas redes de contatos e possibilidades.
Nada termina de fato, tudo se renova.
Dentro dessa visão desapegada da família, as ramificações podem se espalhar.
Cada vez mais ex-companheiros permanecem amigos, a sogra ainda ama o ex-genro, que por sua vez introduz a nova mulher num círculo a que antes não pertencia, e assim por diante...
Filhos das novas relações passam a estreitar contatos, irmãos e pais ganham parentes inusuais, amizades se consolidam, ou pelo menos podem fazê-lo, livre e criativamente.
Minha família hoje, portanto, é muito mais do que aqueles de quem descendo, ou meus descendentes, com quem estabeleci amarras formais.
Meu núcleo familiar é muito mais envolvente e acolhedor do que isso, traz minha história e a dos meus afetos vividos. Acolhe-me enquanto partícipe da vida de pessoas com quem necessariamente não estou mais cotidianamente junto.
Esse é o desafio: aceitar que nossa família, nossa verdadeira família abriga todos aqueles que acolhemos generosamente em nossos corações.
Taí uma boa mensagem de fim de ano, já que o clima é propício para isso:
vamos deixar os formalismos e as dissimulações de lado e nos encarar como somos e queremos ser.
Tudo "em família", com nossas diferenças, semelhanças e peculiaridades de caminhos que podem ou não ser compartilhados, mas que passam necessariamente pela tolerância.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
