Pensata

Luiz Caversan

22/01/2005

Magrinhos demais

Publicidade

"Nossa, como você está bem!"

Tenho ouvido essa frase com uma freqüência irritante ultimamente. Continuo o mesmo, meus humores se alternam como sempre, meus cabelos estão cada vez mais escassos e brancos, os traços se modificam com o caminhar da idade.

No entanto, amigos e conhecidos se espantam como estou "bem" porque emagreci. Mais exatamente perdi 12 quilos nos últimos meses. "É o máximo!", exageram alguns.

Claro que os comentários batem bem na auto-estima, lustram o ego.

Mas o que irrita é a falta de originalidade das observações, todas elas indicadoras da ditadura da magreza, da esbeltez, da "elegância" a todo custo.

Desde que emagreci, não teve um cristão que me perguntasse se eu tive algum problema, se perdi peso em função de uma moléstia, acidente, depressão, anorexia, desilusão amorosa ou falta de comida.

Não, isso não vem ao caso, o que importa é a aparência supostamente chique e de acordo com os padrões que devem, sabe-se lá o porquê, ser obedecidos.

A barriga sumiu, o terno cai bem, o perfil "melhorou"? Uma beleza! Exterior, apenas exterior, e basta.

Por isso nunca, até hoje, senti tão fortemente apreço e solidariedade pelos gordinhos.

Se eu agora estou bem porque magro, quer dizer que quando era mais gordo estava mal? Se é assim que está certo, se não for assim está errado?

Se elegante estou, era um desastre antes?

Sim, e é aí que mora o grande equívoco da estética pasteurizada.

Em tempos de desfiles de moda, em que mocinhas esqueléticas cobrem seus ossos com as últimas tendências, o que dizer da imensa maioria dos que não "estão bem"? São uns fracassados aqueles que não correspondem aos ditames da beleza comercial, embora sejam saudáveis e felizes?

A obesidade tem se tornado cada vez mais um problema de saúde pública, isso é inegável, tem a ver com a degeneração dos bons hábitos alimentares e deve sim ser motivo de preocupação.

O que não dá para aceitar, porém, é a unanimidade burra (como todas elas o são) em torno do que é estar com "boa aparência", nem que para isso seja necessário alimentar-se de alface com limão e viver na mais completa infelicidade.

Em tempo: emagreci para baixar o colesterol e consegui isso mudando a alimentação, diminuindo o álcool e fazendo algum exercício.

E não estou nem mais nem menos feliz do que era antes...

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca