Pensata

Luiz Caversan

05/02/2005

Folia obrigatória

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Ai daquele que não gosta de Carnaval, que não se deixa embalar pelos tambores dos axés ou das baterias, que não se excita com os requebros e genitálias expostas, que não consegue se deixar contagiar por toda a alegria forçosamente predominante que atravessa o país de ponta a ponta invariavelmente nesta época.

Eu às vezes gosto, outras não, já fui entusiasta, hoje sou o que se poderia chamar de low profile em termos de folia.

Até que me agrada, mas me encanta mais ainda relembrar carnavais da infância, blocos de rua, fantasia de índio, o cheiro de lança perfume percorrendo inocentemente os salões, confete, serpentina e bolinagem com muito respeito.

E foi nessa trip de nostalgia que me veio à cabeça um texto de Manuel Bandeira, escrito em Petrópolis no Carnaval de 1925, que pode, dependendo da leitura que se faça, ser atualíssimo.

Vamos a ele, em nome do tríduo momesco.

E bom Carnaval, para quem for afim!

"Não sei Dançar"
Manuel Bandeira

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.
Mistura muito excelente de chás...
Esta foi açafata...
- Não, foi arrumadeira.
E está dançando com o ex-prefeito municipal:
Tão Brasil!
De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugelê banzai!
A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Para a crioula imoral,
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros...
Mas ela não sabe...
Tão Brasil!
Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão do Seridó é o melhor do mundo?... Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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