Luiz Caversan
A morena do Chico
O fim do verão é uma época em que o Rio de Janeiro exerce mais do que nunca seu fascínio. O calor ainda está aqui, firme, mas a luz já muda, a água do mar é cálida e as cores realçam. A sensualidade transpira assim como literalmente todos os corpos. E os espíritos se desarmam para aproveitar o que de melhor há na cidade mais linda do país. Quer dizer, na porção "boa" desta cidade partida, a zona sul que se não é deveria ser cobiçada por todos.
No campo das amenidades, dois assuntos predominam: 1 - a cor esmeralda cristalina e a temperatura do mar, algo próximo à do útero materno; 2 - a morena do Chico Buarque.
Este último tema, mais hora menos hora, acaba aparecendo em todas as rodas de conversa e é introduzido usualmente da mesma maneira: "E a morena do Chico, heim?"
Neste momento, as opiniões se dividem. Mulherão, garantem os caras. Caída, ele merece coisa melhor, vaticinam as meninas.
O reconhecimento por parte dos homens de que a moça com quem Chico foi pego fazendo marola no Leblon seria bonita e gostosa ocorre com um certo ar de contrariedade, porque, pelo menos aqui no Rio, Chico Buarque de Hollanda sempre foi considerado aquele cara diante do qual todo homem se sente potencialmente corno. Essa constatação é do impagável colunista Tutty Vasques (Alfredo Ribeiro, nas internas), para quem, sim, toda mulher, em sã consciência, quer dar para o Chico.
Pelos seus olhos, por sua elegância, seu charme e sobretudo porque nunca ninguém em tempo algum cometeu versos tão reveladores da alma feminina, de seu mundo, seus medos e seus desejos do que o autor de "Bárbara", "Ana de Amsterdã" e "Folhetim".
Mas, vamos aos fatos. A moça é isso tudo, mesmo, ou não?
Com a palavra Cecílio, o motorista da editora Abril que conduzia o fotógrafo que registrou a cena dos dois pombinhos se refrescando no mar e que fez a constatação "in loco": "Ela é um mulherão, ele é que está meio caído...".
"Discordo", protestou uma amiga ontem, aliás com conhecimento de causa. Ela, na casa dos 30, por força do ofício tromba toda hora com o sessentão dos olhos mais cobiçados desta e de outras cidades. E afirma sem dúvida que a escolhida do escritor-cantor-compositor, esta sim, deveria ostentar dotes mais qualificados.
A polêmica está posta, pois, e deve durar até, pelo menos, quando a temperatura cair, as libidos se acalmarem e outros factóides surgirem para exigir a "criatividade" das revistas de fofocas e seus leitores.
Mas não é ocioso afirmar que, no mundo das amenidades banais, essa até que é uma discussão pertinente. Afinal, demonstra que a necessidade de meter o bedelho na vida alheia não respeita classes sociais nem estratos culturais, vai portanto de Ratinho a Chico Buarque, do Jardim Ângela e de Capão Redondo a Ipanema e ao Alto Leblon.
E evidencia também que a transgressão (o homem maduro mito popular no bem-bom com a mulher desconhecida, bonita e casada) nos aviva e cativa do ponto de vista daquilo que de alguma maneira gostaríamos que estivesse acontecendo conosco.
Quem não almeja uma aventura proibida, irreverente e sensual?
Só as pessoas normais, creio.
Eu, se fosse a tal moça, estaria agora pensando assim: quem pode, pode, que não pode se sacode.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

