Pensata

Luiz Caversan

26/03/2005

Pão e vinho

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Ao longo da semana, as discussões se dividiam entre o tempo que iria fazer no feriado, para que se pudesse escolher aonde ir; o tamanho do ovo de chocolate, se diet ou natural; e qual a receita do bacalhau mais apropriada para este domingo.

Mesmo as mensagens de Páscoa que recebi eram muito mais focadas (para usar um termo da moda) nos coelhos e chocolates do que em outra coisa qualquer.

Essa "outra coisa" nada mais é que a tradição da ressurreição, uma das mais belas e emblemáticas da cristandade, mas que pode e deve, perfeitamente, servir de exemplo para todas as crenças.

Nada mais necessário, nos dias de hoje, do que o renascer.
A cada jornada, a cada desafio, a cada obstáculo de nossa existência muitas vezes mesquinha e hipócrita temos a oportunidade de ressurgir diante de nossos iguais para crescermos um pouco mais como pessoas. E quantas chances desperdiçamos para continuarmos assim, pensando apenas no feriado, na comida e na bebida?

Renascer na solidariedade, na justiça, na ética, na generosidade, na
honestidade...

Nada que nos impeça, que fique claro, de desfrutar do peixe e do vinho á
vontade.

Não, o que a ressurreição sugere, simbolicamente, é a necessidade de
rearranjar os valores, para que a vida não se transforme apenas numa
sucessão de horas fútil, inútil e vazia.

Para aproveitar a tradição de presentear as pessoas nas datas festivas, eis que ofereço a todos um primor de crônica do imortal (de verdade) Rubem Braga, escrita em 1953 e que aqui chegou via a leitora Grace.

Boa Páscoa!

_Vida Moderna...vizinhos...

Recado ao Senhor 903.

Vizinho, quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal --devia ser meia-noite-- e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito, e se não fosse o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia.

Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é
impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor o meu, ficamos reduzidos a ser dois
números, dois números empilhados entre dezenas de outros.

Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao Alto pelo 1103 e embaixo pelo 903, que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo.
Quem vier à minha casa (perdão; ao meu nº) será convidado a se retirar
às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15
deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305.

Nossa vida, vizinho, está numerada, e reconheço que ela pode ser
tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita,
ficando dentro dos limites dos seus algarismos. Peço-lhe desculpas e prometo silêncio.

Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um
homem batesse à porta do outro e dissesse: "Vizinho, são três horas da
manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou".

E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come do meu pão e bebe do meu
vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida
é curta e a lua é bela."

E o homem trouxesse sua mulher e os dois ficassem entre os amigos e
amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das
estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores e o dom da vida e a amizade entre os humanos e o amor e a paz.
Rubem Braga_

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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