Pensata

Luiz Caversan

02/04/2005

Três deprimidos na madrugada

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1h30 da manhã de uma sexta-feira fria de maio. Tinha acabado de sair de um jantar com amigos e resolvi não ir direto para casa. Uma passadinha no bar Balcão, tradicional ponto de boemia chique de São Paulo, que fica aberto até bem tarde na região dos Jardins.

No salão principal, não há mesas, mas sim um enorme e interessante balcão em curvas. A intenção evidente é aproximar as pessoas, uma vez que todas ficam sentadas em banquinhos altos, umas ao lado ou à frente das outras, mesmo que não estejam juntas.

Por conta dessa vizinhança mais ou menos forçada, e como o ambiente não estava lotado e barulhento naquele início de madrugada, acabo percebendo qual o assunto que rola entre as três pessoas que estão sentadas bem próximas de mim: depressão.

Pouco antes, no apartamento do casal de jornalistas amigos, conversávamos sobre o tema e sobre o livro que pretendo escrever a respeito. Minha amiga afirmava ter a convicção de que é cada cada vez maior o interesse pelo assunto e que o livro seria útil para muita gente na medida em que ajudasse a entender melhor o assunto. "As pessoas querem saber mais, falar mais sobre isso."

Pois bem, ali estava uma prova concreta de que a troca de experiências e
conhecimentos é uma atitude terapêutica saudável no enfrentamento de um mal que durante tanto tempo ficou confinado e vergonhosamente escondido por seus portadores. Aliás, no mais das vezes o sofrimento depressivo sempre se deu em meio a uma completa ignorância em relação ao que estava acontecendo.

O deprimido sofria só e em silêncio porque nem sabia qual era a causa do
sofrimento.

Ali no Balcão, não: três pessoas, com idades máximas de 35 anos, dois
rapazes e uma moça, revelavam detalhes de surtos que atravessaram, o espanto das pessoas por conta do retraimento que passaram a exibir, o medo de sair à rua, a falta que um deles, cuja família mora no interior, sentiu da proximidade de seus entes mais queridos, os tratamentos, as recidivas, enfim, o enfrentamento cotidiano de seus males, a expectativa em relação a eventuais novas crises.

Por um momento passou pela minha cabeça que ficar ali escutando o que diziam seria uma espécie de voyeurismo, de invasão da privacidade ou coisa do gênero. Mas logo percebi, o que me chamou ainda mais a atenção, que eles não faziam questão nenhuma de manter em segredo ou esconder aquilo que falavam.

Ao contrário: diziam as coisas em alto e bom som, indiferentes à minha
presença e à de outros frequentadores do bar. Não tinham, evidentemente, nem vergonha nem a intenção de disfarçar suas vivências dolorosas, estavam fazendo uma espécie de expiação pública e muito bem resolvida diante daquilo que a vida reservara para eles.

O tema não era fácil, mas a conversa, sim.

Encarei isso como um tremendo avanço: a depressão sendo tratada como assunto corriqueiro, levado para a mesa (ou o balcão) de um bar, e não mais mantido escondido atrás das vergonhas de seus portadores ou entre as paredes de um consultório.

Usando como desculpa a necessidade que o jornalista sente (ou pelo menos deve sentir) de sempre observar atentamente a realidade que o cerca, apurei os ouvidos e registrei boa parte dos diálogos que aconteciam ao meu lado:

"O pior de tudo é explicar para as pessoas", disse a garota, muito charmosa, toda vestida de preto, cabelos com um corte moderno, cerca de 30 anos. "Você fica parecendo um zumbi, alguém que sofreu lobotomia, e isso não tem como explicar, as pessoas não entendem."

"É verdade", concordou o rapaz também moderninho, de costeletas. "Você fica com medo de tudo. Se diz isso às pessoas, elas perguntam assustadas: medo, como assim medo? Medo de quê?"

Os dois falavam com entusiasmo, mas sem afetação, tomavam café e água e não parecia, mesmo no adiantado da hora e no ambiente de um bar, que houvesse algum fator externo --álcool, por exemplo-- contribuindo para a extroversão.

O outro rapaz, tipo sério e trajando um blaser de botões dourados, mais
escutava do que falava, fazendo apenas comentários esparsos que não pude registrar, embora fosse possível perceber que ele também conhecia de perto a depressão.

O moderninho era o mais falante. E podia-se notar perfeitamente que sentia um certo prazer naquilo tudo: se abrir e contar detalhes de suas
experiências com surtos, tratamentos etc.

"Com certeza tem muita gente igual a nós. Olha, vou contar o que aconteceu comigo outro dia. Eu tenho um amigo que sofreu uma crise braba. É um menino superbonito, realizado na vida, mas que durante uma crise chorava como uma criança no meu colo. Eu, como já sabia o que era aquilo, segurei a onda e acabei dando uma força pra ele até a coisa passar."

Saber o que "era aquilo", para o meu locutor moderninho, significava ter
tido duas crises de depressão. "Depois da primeira fui ao médico e ele
mandou tomar antidepressivo. Depois de um tempo, suspendeu a medicação, mas foi um erro, porque após um ano veio outra crise. Agora, tomo remédio há um ano e não sei quando vou parar. Na verdade fico esperando o próximo episódio. Pode parecer estranho dizer isso, mas para mim até que foi bom ter depressão, porque antes eu não tinha vontade de me comunicar com as pessoas.

Depois das crises, comecei a escrever. Ou seja, foi um bom negócio ficar
deprimido para conseguir me exprimir. Hoje, eu falo sobre qualquer assunto, sexualidade, seja o que for."

O rapaz de blaser azul aproveitou a pausa e perguntou: "Você acha que o seu caso é genético? Tem alguém deprimido na sua família?"

"Sim, minha mãe é deprimida. Mas você não acha que todo mundo é meio
deprimido?"

O outro concordou prontamente e todos riram, obviamente deixando claro que eles faziam parte desse "todo mundo".

Por sua vez, a garota contou que quando tinha suas crises de depressão
ninguém percebia. "Eu chorava ouvindo qualquer música, era uma loucura. Mas ninguém notava que eu estava deprimida. De qualquer maneira, essas experiências todas serviram para eu descobrir que as pessoas não têm um lado só."

Depois de quase meia hora "viajando" na conversa daquelas pessoas, gente bacana, moderna, antenada com seu mundo, fui para casa dormir, agora com uma convicção maior de que o isolamento que historicamente extraiu o deprimido de suas relações, de convívios que seriam ferramentas utilíssimas para a sua própria recuperação, começa a ser rompido. E o mais importante: por iniciativa das próprias vítimas da doença, que graças aos tratamentos mais eficazes e a uma abordagem corajosa de sua condição, têm cada vez mais períodos longe da doença, durante os quais podem trocar experiências, vivenciar a emoção de outros e se fortalecer. Ainda que seja no balcão de um bar, numa madrugada fria.

Nada mal, pensei. Nada mal.

(capítulo inédito do livro "Depressão no País da Alegria", que um dia, quem sabe, este colunista irá publicar).

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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