Luiz Caversan
Sandálias da humildade
Leitor furibundo escreve para me detonar, e eu adoro isso. Maldonado Antunes, eis o nome da fera que mandou o e-mail enumerando uma série de predicados destinados a este colunista.
Com a indignação própria dos convictos, disse que os temas tratados
semanalmente neste espaço são um engodo, empulhação, farsa, trafegam da "literatice à auto-ajuda tacanha" sem brilho nem talento. Enfim, zero à esquerda...
Que o pessoal da Folha Online não nos ouça, mas ele diz que é um absurdo o site permitir que alguém tão desqualificado ocupe espaço que deveria ser destinado a temas maiúsculos e não, conforme insiste o cidadão, à auto-ajuda de quinta.
Sério, achei o máximo ser incluído nesse gênero. Gostaria, é verdade, de
ganhar, falando de relacionamentos, depressão, amor, filhos e da singela e tosca realidade que nos cerca, o que ganham aqueles caras que nos ensinam a dividir o queijo ou a usar os poderes da mente para ser feliz e ficar rico.
Quem sabe um dia eu chegue lá, mas, ok, eu calço as sandálias da humildade e admito que o nosso Maldonado tem certa razão.
Ostento o defeito incorrigível de olhar em volta e achar que as coisas
simples e triviais podem conter muito mais significados do que os tratados e seus geniais autores.
Que é conversando que a gente se entende, que nossas semelhanças podem diminuir nossas desavenças, que vale a pena ir, sempre e em frente.
Provavelmente esteja errado, claro, mas não vou perder a linha.
Partamos, portanto, à galhofa: vou dedicar o espaço que me resta na coluna e na paciência do leitor para um exercício antípoda ao da auto-
ajuda, o da autodestruição.
Para tanto, peço licença ao famoso Doutor Carneiro, autor do sensacional livro "Minutos de Estupidez" (editora Ópera Bufa), para oferecer aqui seis de seus impagáveis conselhos. Em homenagem a Maldonado Antunes, claro:
1- "Quem é corajoso morre primeiro. Por isso, quando a vida lhe impuser algum desafio, alguma barreira, algum obstáculo espinhoso, pernas para que te quero: saia de perto, fuja o quanto antes. Lutar cansa muito e você ainda pode sair machucado."
2- "Perca a cabeça por qualquer bobagem. Assim, você desopila o fígado e não fica com aquele sapo gordo entalado na garganta toda vez que a vida lhe castigar. E como isso acontece o tempo todo, a solução é rodar a baiana. Portanto, não tenha vergonha de ter chiliques e armar barracos por qualquer motivo besta."
3- "Seu fim está próximo e de nada adianta pensamento positivo. Seu corpo e tudo o que tem dentro dele está prestes a desabar, a se desintegrar. Você está apodrecendo aos poucos e não há nada que possa fazer além de esperar o inexorável."
4- "A irritação é a melhor maneira de fazer com que as coisas sejam como você quer.(...) Se você não se irritar, não perder a calma, o outro vai achar que você não está nem aí e não vai resolver o seu problema!"
5- "Desanime antes que seja tarde. A vida é um fardo pesado demais para carregar e não vale a pena ficar insistindo à toa. Não enfrente as crises, fuja delas!"
6- "Espalhe o mal. Seja o mensageiro da desgraça, o office-boy da
escrotidão, o disk-pizza da desventura. (...) Culpe os outros pelos seus fracassos, promova a discórdia entre irmãos, exale a inveja, cultive
inimigos, aniquile esperanças, fomente a tristeza. Se você não pode ser
feliz, se você não pode ser um vencedor, que ninguém o seja!".
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

