Luiz Caversan
Réquiem para um amor impossível
Com a manhã vieram as lágrimas, incontroláveis, incontíveis.
Ele logo concluiu: então é isso: a dor no esterno, que tantas e tantas vezes sinalizara a certeza de que a paixão se instalara definitivamente, agora pulsava um pouco mais acima, no peito, do lado esquerdo do peito.
O coração em frangalhos.
Então era isso, ele pensou (como Bandeira ou Drummond?) com desalento, com desencanto: a tristeza de já alguns dias, a falta de brilho no olhar, a calma irritante de quem aceita a derrota iminente...
Era isso, o fim.
Sim, era o fim, aceitou.
Não teve como conter um certo sarcasmo: então era assim?
Assistir ao fim de um sentimento tão lindo, tão profundo, que mobilizara
tanto, que iludira tanto, porém...
Tolo que sou, criticou-se.
Mas não há mais forças, tentou conformar-se.
Desisto; eu não, porque o eu sempre foi secundário, aquiesceu como que se autojustificando.
Foi-se, desistiu-se, o fogo esvaiu-se lenta e inexoravelmente. Que
dramalhão, pensou.
Nem tanto, permitiu-se.
Afinal, perdera totalmente a ilusão de que haveria um futuro lindo em
comum...
"Será minha mulher, haverá de ser minha querida, companheira para a última e a primeira hora, Paris, praia, banho de rio, Ti voglio tanto bene in Firenze..."
Bobagem...
"Vou, sim, poder acordar à noite e acariciar seus cabelos macios, velar seu sono, sonhar seus sonhos..."
Delírio...
Não, não haverá mais essas que foram, na verdade e sempre, fantasias
intangíveis, decretou.
Duvidou de tudo, porém: por que, então, estas lágrimas, se, no fundo, sempre soube que seria assim, inatingível?
De onde tirava tanta certeza, tanta força?
Para onde foram força e certeza?
Por que o abandonaram?
Desesperou-se...
Nunca pensou que fosse possível amar tanto, ou se enganar tanto por tanto tempo.
Agora, ele não tinha dúvida, a dureza da realidade crua superou qualquer
faceta que o coração ainda teimasse em ostentar.
A undécima rejeição, a constatação dos mundos tão diversos, o medo que
acabou contagiando-o deixaram tudo claro e transparente como a manhã quente de outono: impossível continuar.
Não há mais forças, não há como prosseguir lutando pelo amor que precisa,
deseja e merece.
Não há mais nada, a não ser o vazio na boca do estômago, os olhos vermelhos e a tristeza profunda na alma.
Permitiu-se, ainda assim, um último rompante de romantismo exagerado, tão banal quanto inútil:
"Que pena, meu amor, que pena pronunciar essas duas palavras tão mágicas
pela última vez..."
(Transliteração sentimental de uma história aparentemente verdadeira
relatada aos prantos a este colunista)
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
