Pensata

Luiz Caversan

16/04/2005

Réquiem para um amor impossível

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Com a manhã vieram as lágrimas, incontroláveis, incontíveis.

Ele logo concluiu: então é isso: a dor no esterno, que tantas e tantas vezes sinalizara a certeza de que a paixão se instalara definitivamente, agora pulsava um pouco mais acima, no peito, do lado esquerdo do peito.

O coração em frangalhos.

Então era isso, ele pensou (como Bandeira ou Drummond?) com desalento, com desencanto: a tristeza de já alguns dias, a falta de brilho no olhar, a calma irritante de quem aceita a derrota iminente...

Era isso, o fim.

Sim, era o fim, aceitou.

Não teve como conter um certo sarcasmo: então era assim?

Assistir ao fim de um sentimento tão lindo, tão profundo, que mobilizara
tanto, que iludira tanto, porém...

Tolo que sou, criticou-se.

Mas não há mais forças, tentou conformar-se.

Desisto; eu não, porque o eu sempre foi secundário, aquiesceu como que se autojustificando.

Foi-se, desistiu-se, o fogo esvaiu-se lenta e inexoravelmente. Que
dramalhão, pensou.

Nem tanto, permitiu-se.

Afinal, perdera totalmente a ilusão de que haveria um futuro lindo em
comum...

"Será minha mulher, haverá de ser minha querida, companheira para a última e a primeira hora, Paris, praia, banho de rio, Ti voglio tanto bene in Firenze..."

Bobagem...

"Vou, sim, poder acordar à noite e acariciar seus cabelos macios, velar seu sono, sonhar seus sonhos..."

Delírio...

Não, não haverá mais essas que foram, na verdade e sempre, fantasias
intangíveis, decretou.

Duvidou de tudo, porém: por que, então, estas lágrimas, se, no fundo, sempre soube que seria assim, inatingível?

De onde tirava tanta certeza, tanta força?

Para onde foram força e certeza?

Por que o abandonaram?

Desesperou-se...

Nunca pensou que fosse possível amar tanto, ou se enganar tanto por tanto tempo.

Agora, ele não tinha dúvida, a dureza da realidade crua superou qualquer
faceta que o coração ainda teimasse em ostentar.

A undécima rejeição, a constatação dos mundos tão diversos, o medo que
acabou contagiando-o deixaram tudo claro e transparente como a manhã quente de outono: impossível continuar.

Não há mais forças, não há como prosseguir lutando pelo amor que precisa,
deseja e merece.

Não há mais nada, a não ser o vazio na boca do estômago, os olhos vermelhos e a tristeza profunda na alma.

Permitiu-se, ainda assim, um último rompante de romantismo exagerado, tão banal quanto inútil:

"Que pena, meu amor, que pena pronunciar essas duas palavras tão mágicas
pela última vez..."

(Transliteração sentimental de uma história aparentemente verdadeira
relatada aos prantos a este colunista)

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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