Luiz Caversan
Quero um cachorro
Desisti provisoriamente da espécie humana.
Pelo menos da espécie humana enquanto objeto de convivência diária
espontânea.
Quer dizer, não dá para desistir da espécie humana cujo representante paga seu salário, dirige o táxi, serve a refeição, resolve problema de cartão de crédito, cuida dos seus dentes. Esse, assim como muitos outros, é indispensável.
Refiro-me a exemplares da espécie humana, essencialmente do gênero feminino, com quem opte por dividir o mesmo espaço doméstico.
Desisti.
Agora, quero um cachorro.
Muitos anos atrás, quando ainda compartilhava meu habitat carioca com alguém desse perfil, tive dois gatos, Tony e Boris, ambos falecidos e de saudosa memória. Ainda hoje guardo na minha poltrona de couro vestígios de sua passagem pela terra, nas marcas de suas garras afiadas.
Não, gato não mais, cachorro.
Fiel, companheiro, presente, dedicado, serviçal.
Os cães são assim, me dizem.
Basta adequar a personalidade do bicho ao seus requisitos, informam os sites especializados.
Tamanho, grau de agressividade, função, espaço de criação, alimentação
adequada, umas broncas e... pronto.
Nada de reclamações, TPM, carências afetivas exageradas, discussões sobre a relação no meio da madrugada, problemas com filhos de um e de outro.
Nada desse monte de defeitos que a espécie humana foi acumulando ao longo de sua tortuosa existência e que têm se aprimorado na mesma proporção em que avança a modernidade.
A tecnologia a serviço da neurose do homem.
Chega, agora quero um cachorro.
Segundo o site do Kennel Clube do Brasil, há mais de 500 raças disponíveis.
Basta escolher a mais adequada, ora...
No entanto, foi exatamente quando comecei a pesquisar a infinidade de pets que poderia ter ao meu lado que veio a grande dúvida: mas será que EU serei conveniente ao bichinho?
Será que minha agressividade é adequada, será que conseguirei dividir meu espaço com ele, será que meu tamanho é bom, qual seria minha melhor aptidão, companhia, caça ou guarda?, e seriam aceitáveis minhas atividades espontâneas?
Bem, optei por interromper minhas pesquisas. Porque, se resolvi uma parte da questão gerada pela minha atávica inabilidade de lidar prolongadamente com companheiras decidindo ter um cachorro, a questão agora é encontrar um totó que me queira.
Será que há?
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

