Pensata

Luiz Caversan

14/05/2005

A menina do lenço rosa

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Naquela confusão toda do metrô, ela se destacava por dois motivos: os olhos e o lenço rosa que lhe cobria a cabeça.

O lenço era rosa rosa, daqueles impossíveis de não se notar, com apliques brilhantes que o tornavam mais vistoso ainda.

Seria um exagero, brega até, não fossem os olhos da menina.

Menos de 10 anos de idade, segurava a mão da mãe e caminhava empertigada, exibida, ostentando um olhar único, brilhante, orgulhoso.

O lenço cobria a cabeça desprovida de cabelos, cruelmente tolhidos pelo
tratamento da leucemia. A fragilidade do corpo, o rosto abatido e a falta de cabelos deixavam isso claro --e uma médica amiga tirou, mesmo que à distância, qualquer dúvida quanto à doença.

Mas o olhar estava ali para modificar radicalmente o que deveria ser um
quadro de comiseração e dó, de pena e muitos outros sentimentos desse tipo.

Obviamente ela sentia em seu corpo debilitado todo o impacto da moléstia e do tratamento invasivo. Mas aí vinha o lenço, que para ela era, isso ficava absolutamente claro, a coisa mais linda do mundo e fazia, ah, fazia sim, com que aquela réstia de vida valesse muito a pena.

Na confusão do metrô a menina, seu drama, seu olhar e seu lenço se perderam logo. Mas atrás dela ficou um rastro de sentimentos raros, delicados e improváveis.

A vaidade daquele serzinho que tinha pouca chance de vir se tornar uma
mulher era o seu "leit motiv", sua força vital, sua alavanca para frente, em direção a um mundo bom, lindo e brilhante como seu lenço, mas que podia ser percebido apenas e unicamente pelos olhos encantadores.

A menina e sua mãe se foram, ela uma sobrevivente sabe-se lá por quanto tempo --talvez por muitos anos, dependendo do êxito de tratamentos mais modernos.

E restou apenas a sensação de que somos os inúteis cadáveres adiados que procriam (Fernando Pessoa) ou seres maravilhosos como um lenço cor-de-rosa e brilhante.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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